Vocação ou Convocação Compulsória

From Opus Dei info

Acho que nós cristãos acreditamos que a vocação para realizar uma missão apostólica particular, de uma maneira também peculiar, parte de Deus. Deus chama o homem ou a mulher, ele ou ela escuta e livremente dá o seu consentimento. Deus corresponde com as graças necessárias para o cumprimento da missão e apesar das dificuldades normais, existentes em qualquer compromisso, o que foi chamado vai realizando a missão com alegria, paz e felicidade. Deus chama quem quer, onde quer e quando quer.

Existem vocações para as mais diversas ordens religiosas, para o sacerdócio ou diaconato diocesano e para tantas outras obras apostólicas. As obras apostólicas e instituições que querem receber vocações fazem a sua divulgação, pois logicamente ninguém ama o que não conhece. Como as vocações podem estar em qualquer lugar, é necessário, além do exemplo de vida local, fazer com que a missão, o estilo de vida, o modo de agir da obra apostólica ou da instituição cheguem a todos, ou pelo menos a muitos. Quando a finalidade e os meios usados são bons eles podem ser divulgados sem restrições, não há nada a esconder, pelo contrário, a divulgação do modus operandi das obras apostólicas já pode ser um modo de aproximar as pessoas de Deus.

Existe vocação, no sentido exposto anteriormente, para ser membro da Prelazia do OD? Acredito que não, por vários motivos:

  • Quem ingressa no OD não conhece bem a totalidade da sua essência, o OD vai se mostrando aos poucos. Este dar a se conhecer aos poucos, nada tem a ver com o caminho natural de se ir descobrindo uma pessoa amada, a cidade que se mora, a faculdade em que se estuda ou uma associação, clube ou instituição que se ingressou. O OD é muito hermético, não gosta nada de publicidade nem interna e nem externa. Há pessoas que quando ingressam nele como numerários sem mesmo sabiam que existiam supernumerários ou adscritos. Muito menos sabiam que existia um período inicial probatório e que, somente neste período, ainda poderiam ser admitidos como super-numerários, ou serem convidados a deixar a Obra. Existem cooperadores que são nomeados sem saber as diversas classes de associados que existem no OD e que também crianças podem pertencer a Obra como membros celibatários.
  • O OD não aceita que alguém bata às suas portas e diga que tem vocação, ou que quer conhecer melhor a Obra, para de fato verificar se tem vocação. Acho que eles achariam esta atitude muito clerical e a palavra “clerical” é altamente ofensiva dentro da Obra. Aliás, a hipótese de alguém entrar no OD por iniciativa ou vontade própria não existe. O OD é que seleciona quem quer e provoca a crise vocacional. Ele seleciona, segundo os seus critérios, quem quer e cuidadosamente prepara o candidato para que este “livremente” peça para entrar, é a tal farsa de fechar as portas para entrar, é a “santa coação”, é o compele entrare, é a “santa intransigência”, termos estes muito propagados dentro da Prelazia. Se quem o OD escolheu não pedir para entrar ele pressiona o quanto pode. OD convoca e pronto. Em última instância qualquer católico com virtudes humanas, capacidade intelectual e boa saúde (eles excluem aqui os deficientes físicos) pode ser convocado para ser numerário(a). O OD age como um exército que está lutando na guerra e precisa de combatentes. Não tem essa “frescura” de alistamento voluntário, você é convocado e pronto, doe a quem doer (pai, mãe, irmão, noiva, avô, etc.). Se não for para o front é desertor e automaticamente perde todos os seus direitos. Até garotos(as) de catorze anos e meio podem ser convocados, exatamente como fizeram os desesperados nazistas na Alemanha nos estertores do seu reinado de terror.
  • Os sacerdotes numerários da Obra também são convocados. Acho que seria um pouco estranho, clerical na mentalidade do OD, um numerário leigo pedir para se ordenar. Novamente ocorre a convocação. Todos os(as) numerários(as) são condicionados a entenderem que um “por favor” dos diretores é como uma ordem que deve ser cumprida. Isto é ensinado abertamente e dentro do OD. A isso chamam de “delicadeza no mandar e no obedecer”.

Como, a meu ver, para o OD não há vocação, mas sim convocação compulsória, fica explicada sua maneira de tratar um ex-membro como desertor. Para eles o miserável desertor é um traidor que não tem mais direitos e que deve acima de tudo ser castigado, ser infeliz nesta terra e de preferência ser condenado eternamente. Isto é o que ouvimos milhares de vezes nos meios de formação interna da Obra, de maneiras variadas e ilustrativas. Este modo duro e nada caritativo serve para dois propósitos: o primeiro é desestimular a evasão dos seus membros com “um pouco” de terrorismo psicológico, e o segundo é evitar que estes “traidores” contaminem a pureza da sua ortodoxia, ou venham a pôr minhoca na cabeça dos outros.

Vocação é um chamado, uma brisa suave que tem a capacidade de tocar e sensibilizar a alma. Convocação compulsória é uma violência, é uma caçada, divertida para o caçador e cuasa de tormento para a vítima. A primeira é divina, a segunda é maldade.

Rúbio D.



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