Reflexões sobre o modus operandi do Opus Dei

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Preâmbulo

Estas considerações são frutos de uma experiência pessoal, como numerário do Opus Dei por mais de dez anos, e de uma reflexão também de muitos anos como ex-numerário.

Logicamente, só poderá entender e julgar plenamente a procedência destas considerações os ex-numerários(as) do Opus Dei. Pessoas que não tiveram esta experiência, tais como super-numerários, cooperadores, freqüentadores dos Centros do Opus Dei e curiosos provavelmente duvidem, do todo ou parte, deste depoimento.

Os numerários, membros celibatários, que ainda tem viva dentro de si a chama da dignidade, da individualidade e da liberdade poderão julgar com conhecimento de causa o que afirmo. Para os demais numerários as minhas observações serão tidas como caluniosas ou na melhor das hipóteses, como um ponto de vista desprovido de visão sobrenatural.

A experiência pessoal nunca pode ser integralmente apreendida pelo outro, cada um quer viver a sua própria experiência, mesmo que algumas vezes se tenha que pagar um alto preço. Por isso, este depoimento, que não tem a intenção de convencer a ninguém, é mais um alerta e um desabafo. Ou seja, vou gritar, provavelmente, sem ser ouvido por quem poderia ouvir.

Do falso efeito não se chega às causas verdadeiras

A Prelazia pessoal do Opus Dei, ou a Obra como é chamada, é uma organização muito complexa e, portanto não pode ser entendida facilmente. A Obra tem muitas facetas e nuances, mescla o humano e o divino, a tolerância e a intolerância e principalmente mescla o seus fins e os seus meios de uma forma paradoxal.

Aparenta algo que é, mas que não é só aquilo que aparenta. Mostra externamente como finalidade aquilo que é simplesmente meio. Cria em torno de si uma maravilhosa e densa atmosfera que mascara a sua essência e os seus fins verdadeiros. Em linguagem científica é um sistema com algumas variáveis de estado não observáveis. Para se ter o conhecimento destas variáveis é preciso estar dentro do sistema e quem está dentro do sistema são somente os seus membros chamados de numerários.

O que se vê dela é aparentemente bom, atrativo, louvável e desejável. As pessoas que são da Obra ou que freqüentam os seus Centros são aparentemente alegres, simpáticas, compreensivas, amigas, atenciosas, tem vida espiritual, visão sobrenatural, são bons cristãos, bons cidadãos, etc. Além disso, os seus super-numerários, membros casados, são pessoas respeitáveis, e em grande numero gozam de credibilidade e competência publica, pode-se dizer que são o cartão de visita da Obra. É através dos seus super-numerários que muitos vêem a Obra. Como pelos frutos se conhece a arvore pode-se concluir de modo lógico que a Obra, sem duvida, é uma boa instituição. Ai começa o paradoxo.

Seus aparentes frutos externos aparecem como bons, mas acontece que estes bons frutos, visíveis, não são frutos, não são sua finalidade, eles são apenas os seus meios para alcançar os seus fins. Pelos efeitos se conhece a causa somente se, de fato, o que se observa são os efeitos.

A credibilidade dos super-numerários, o exemplo dos numerários e o bom e alegre caráter dos que freqüentam os Centros formam o ambiente que é usado, cuidadosamente e inescrupulosamente, pela Obra para o seu crescimento e sustentação. É neste ambiente fértil que o anzol do pescador é lançado, é neste ambiente que o pescador também forja o anzol. Fazendo-se um paralelo, desproporcionado mas didático, pode-se dizer que o predador com a colaboração da incauta presa constrói o ambiente favorável e as armadilhas que serão utilizados na sua caçada. Obviamente o predador abate um numero insignificante de vitimas para que o sistema se mantenha. Os super-numerários, por exemplo, servem como credencial da Obra, dão apoio material e de bandeja preparam e dispõe seus filhos, em geral eles tem uma prole numerosa, para que sem muito problemas possam servir a Obra, principalmente como numerários.

Quem observa a Obra de fora julga que os seus meios são os seus fins e quem a conheceu por dentro, sentiu seu peso e pôde sair a tempo, julga e condena os seus fins e meios. Esses dois grupos jamais se entenderão. Quando falam da Obra, uns bem outros mal, cada um fala de uma das suas diferentes facetas.

As pessoas que desfrutam do aparente bom ambiente em torno da Obra também servem de escudo humano para ela. Muitas vezes para se denunciar, criticar e atacar o seu cerne é preciso antes ferir, magoar, desconcertar e desiludir pessoas boas que se beneficiam dos seus meios. Este fato também inibe algumas criticas ao seu modus operandi e faz muitos calarem. Em outros casos, estas pessoas, escudos humanos, voltam-se contra os que criticam a Obra, ou quem em matéria de comportamento religioso não reza pela sua cartilha, tornando-se assim, sem saberem, paladinos do sectarismo. Um exemplo é o comportamento de muitos super-numerários que preferem, por influência da Obra, que os seus filhos não freqüentem escolas católicas, dirigidas por religiosos(as), que aos olhos do Opus Dei não obedecem ao Papa ou propagam heresias.

Finalidade – Auto-crescimento

Qual é então a finalidade da Obra? Outro fato singular é que a Obra tem a sua finalidade em si mesma. A sua única finalidade é crescer, pois crescendo, a seu ver, serve a Deus e a Igreja. Todas as suas ações são pragmáticas e visam o seu crescimento numérico e o seu crescimento em influência. A influência é mais que o poder, a influência é o poder vigilante.

Uma associação, sociedade, ordem, instituto ou organização religiosa sadia tem por fim em primeiro lugar a glória de Deus a evangelização, a caridade, ou algo de bom equivalente, tem em segundo lugar a legitima aspiração de se perenizar e crescer.

Por exemplo, quando um numerário faz uma "visita aos pobres" [atividade comum nos centros] com um rapaz que pode se tornar numerário, o menos importante é o pobre visitado, ele é um simples meio. O objetivo da visita é observar a reação do acompanhante e sensibilizá-lo. Como dizia o seu fundador o ideal é visitar o que os espanhóis chamam de pobre envergonhado, isto é, uma pessoa rica ou famosa que perdeu a riqueza ou a fama. Outro exemplo, um paraplégico, como não pode ser numerário, nunca será objeto prioritário de um numerário e muito menos irá freqüentar um Centro de numerários. Não se vai “perder tempo” com ele. Se um paraplégico freqüentar um Centro da Obra com regularidade será para aparentar que não há descriminação, ou porque ele pode ser útil de algum outro modo, por exemplo, ser for rico pode contribuir financeiramente.

Outra pratica abominável é o fato de não se importarem com o número de saídas de numerários. Parece que se o saldo entre entradas e saídas for positivo, mesmo que ligeiramente positivo, as coisas vão bem. Não se importam, pois apesar do grande número de perdas não fazem uma reflexão crítica e muito menos mudam os seus métodos desonestos e desumanos de recrutamento e o modo opressivo e indigno como tratam os seus numerários. Logicamente não há o que mudar já que tudo o que fazem, a seu ver, é a autentica vontade de Deus.

Os numerários – algozes e vítimas

A Obra prega a santificação do trabalho e afazeres do dia a dia através de uma vida bem vivida, deve-se procurar fazer o melhor que se pode ao mesmo tempo que se oferece tudo pela gloria de Deus e se vive o amor ao próximo. Esta bela mensagem universal que poderia ser vivida livremente por todas as pessoas, em cada uma das suas situações particulares, é vivida de maneira peculiar e paradoxal pelos numerários.

O numerário, membro celibatário, não escolhe ser da Obra ele é escolhido pela Obra. Os motivos pelo qual ele ingressa pode ter vários nomes, vocação, chamado de Deus entre outros, mas o fato é que ele foi escolhido por pessoas dentro da Obra. A escolha, “humanamente falando”, é baseada no seu potencial em servir a Obra ou como dizem servir a Deus. Obra, Igreja e vontade de Deus entenda-se como sinônimos. Algumas vezes se utilizam de um título de um livro (É Cristo que passa) de seu fundador para coagir a uma decisão positiva e rápida de se pertencer a Obra. Diz-se que Cristo passa e chama, se não for atendido no momento ele pode não passar novamente, pode não haver uma segunda oportunidade. Imagine o impacto desta convocatória, feita por um sacerdote, a um jovem temente a Deus que foi previamente preparado para dizer sim. É muitíssimo difícil dizer não a Deus e ficar para sempre tido como aquele que frustrou os propósitos do criador.

Quando decide ser da obra, “livremente”, o numerário não sabe realmente com o que está se comprometendo. Este tipo de ignorância nada tem a ver com os obstáculos e dificuldades que qualquer compromisso acarreta. Esta ignorância tem a ver com o desconhecimento da finalidade e dos meios opressivos e desumanos utilizados pela Obra.

A vida de alguns numerários na Obra começa com 14 anos e meio, são os chamados aspirantes. Logicamente a Obra “prudentemente” estimula com “argumentos divinos” os aspirantes a esconderem esta situação da sua família de sangue, alcunha dada aos pais de um numerário.

Após o seu ingresso, aos poucos o numerário vai se moldando a Obra até, em palavras do seu fundador, ter somente o fim corporativo. É neste moldar-se, ou anular-se, que a violência moral e espiritual se processa. Toda e qualquer espontaneidade é suprimida e substituída gradativamente pelo dever de servir a Obra, que é sinônimo de servir a Deus e a Igreja. Logicamente a vontade de Deus é manifesta em detalhes pelos diretores dos numerários, que também são numerários. Para os que moram nos Centros da Obra um simples telefonema aos pais deve ser motivo de consulta sobre a conveniência de se fazer ou não a chamada. As correspondências que chegam são todas violadas pelos diretores e as cartas escritas são lidas por eles antes de serem lacradas nos envelopes.

Um grande paradoxo é que o numerário é forçado ou coagido, sempre em nome da vontade de Deus, a “livremente” fazer aquilo e somente aquilo que deve ser feito, entendendo-se que aquilo que deve ser feito é o que foi mandado pelos diretores. Exagerando, esta situação lembra os tristes interrogatórios inquisitórios em que a vitima inocente deve confessar ”livremente” a sua culpa e por ela ser condenada.

O tipo de coação que consiste em fazer com que uma pessoa faça “livremente” e com “alegria”, mesmo não querendo, chorando, amargurada e aflita, o que lhe é ordenado, logicamente em nome de Deus, pelos diretores, é a mais sofisticada e brutal forma de coação perpetrada contra a dignidade humana. É uma coação, digamos limpa e sem marcas, na qual não é necessária a força ou a tortura física.

O Opus Dei é a máquina perfeita na qual tudo é calculado e executado “livremente”, com inteligência e minuciosamente, pelos numerários e as vezes também pelos super-numerários. Um simples convite pelo telefone, que alguém recebe de um numerário foi algo pensado e dirigido pelos diretores. A maquina prussiana de guerra pode ser considerada um jogo de crianças perto da máquina “divina” do Opus Dei. Um exemplo do seu poderio de mobilização é a canonização em tempo recorde do seu Fundador. Se a canonização demorou um pouco foi para não dar muito o que falar.

A maquina perversa, sugadora da individualidade e liberdade que é o Opus Dei, só poderá ser detida ou reformada se pessoas decentes dentro da Obra se revoltarem e não aceitarem muitas das loucuras que dizem ser vontade de Deus.

Tudo é dirigido e controlado, até os mínimos detalhes, os gastos diários, o apostolado, os livros que devem ser vendidos, as contribuições que se deve conseguir e as “vocações” que se deve conquistar. Uma critica interna é tida como murmuração e é objeto da chamada correção fraterna. Dentro da Obra, em relação aos numerários, a vigilância é constante e cerrada. Temem a espontaneidade e a liberdade, pois vêem nela uma possibilidade concreta de desvio da ortodoxia, ortodoxia segundo os critérios da Obra é claro.

Os numerários que de fato não tem outro fim senão o corporativo, que é o anseio do fundador da Obra, são aqueles desprovidos do sentimento de humanidade pelo próximo, são aqueles desprovidos de empatia pelo outro, ou seja, não conseguem se colocar no lugar do outro, este outro que tem sentimentos, individualidade, dignidade, desejos de liberdade, que quer amar e ser amado. O fim corporativo não diviniza ninguém ele brutaliza. Ainda bem que pelo menos uns poucos numerários, leigos e clérigos, são “desajustados” e jamais terão este fim único que é o corporativo. Estes, rejeitados dentro da Obra, quem sabe um dia, muito distante, ainda sejam os seus salvadores.

O que mantém então um numerário insatisfeito na Obra por poucos, muitos anos ou para sempre? O ideal da santificação do cotidiano, o ideal de cumprir a vontade de Deus, a amizade por outros numerários, companheiros da mesma sina, a amizade pelos que freqüentam regularmente os centros, e também a pressão, a alcunha de traidor e o medo de ir contra a vontade de Deus, manifesta na vontade dos diretores. Na Obra ouve-se, e estas eram as palavras do seu fundador, que quem abandona a Obra jamais será feliz na vida e mesmo aquelas coisas que trazem um pouco de felicidade no mundo parecerão fel na boca dos que a abandonaram. Em relação a mim isto nunca aconteceu, o que acontece é que, ainda hoje, um dos meus mais terríveis pesadelos é sonhar que voltei a ser numerário e desesperadamente me arrependo de ter retornado.

O trauma da saída de um numerário vem da indução de que se está indo contra a vontade de Deus, de se abandonar alguns bons e queridos amigos numerários e amigos que freqüentam os Centros da Obra, amigos com os quais não se terá mais relacionamento. O trauma também vem da insensibilidade dos diretores leigos ou dos clérigos, pois quando o numerário pensa em sair ele, via de regra, estará com a alma ferida, o coração partido, deprimido, com a corpo cansado e a recomendação nestes momentos é que ele somente lute para cumprir o plano de vida. Este plano consiste de meditação oração, missa e outras práticas espirituais boas. Isto equivale a pressionar um maratonista que mesmo não tendo forças para chegar ao fim que se preocupe em correr com elegância. Enfim, dão mais importância a letra morta do que a vida. Este comportamento leva, em alguns casos, a revolta contra Deus e contra a Igreja.

A saída é sem nada, vai-se com os objetos pessoais e só. Para quem sai a vida começa do zero. Quem sabe não do zero, pois apesar de tudo a experiência, a formação profissional adquirida fora da Obra, o livre pensar, o amor a Deus e a essência da dignidade humana não podem ser suprimidas por vontade de homem ou organização nenhuma na terra. Enfim, apesar da afirmação ser questionável, como diz o poeta, tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

A Obra e a Igreja

A Obra se considera a expressão objetiva de Deus no mundo Ela se julga o corpo de elite da Igreja Católica e o baluarte da ortodoxia e da verdade. Com ela não há possibilidade de dialogo, pois seus ditames são infalíveis.

Como a Igreja suprimiu o seu Index ela criou o seu próprio. O Index consiste de uma relação dos livros proibidos e que, portanto os seus membros não podem ler. No Index estão romances, contos, livros sobre filosofia, religião, vida espiritual, enfim, tudo que por ela é considerado perigoso. Ela inclusive tem reparos em relação a algumas orações litúrgicas que rezamos nas missas dominicais.

Sobre o seu amor incondicional ao Papa, ouvi do seu fundador um comentário desconcertante sobre a humildade manifesta do Papa Paulo VI ao receber lideres da Igreja Ortodoxa. Monsenhor Escrivã comentou que tal manifestação do Papa, perante os ortodoxos, lhe dava muita pena.

Diante das intenções do Vaticano em declarar santo o sacerdote polonês Maximilian Kolbe ele era claro. Achava absurdo canonizar um sacerdote católico que voluntariamente substituiu um pai de família, no caso judeu, preso no mesmo campo de concentração, que iria ser executado.

Associações religiosas ligadas ao ensino também são vistas com muitos reparos pela Obra. Bispos e sacerdotes que se preocupam com questões sociais também não são bem vistos.

Os finalmentes

Diz sabiamente uma musica infantil intitulada "Porque sim" não é resposta: “a gente grita porque tem coisas que só o grito consegue dizer”.

Há coisas que não se consegue dizer e quando nos deparamos com elas, quem sabe, além do grito, somente a poesia pode fazer aflorar o que está no fundo da alma.

O tempo passou,
                   correu, parou, andou.
         A cicatriz fechou,
                         fechou mas ficou.
Às vezes sangra,
                bem as vezes,
                bem pouquinho, mas sangra.
Não sei porque sangra.
                Dor? Ressentimento? Ódio? Perplexidade? Saudade?
                                                        Saudade de poucos.
Feriram fundo a alma.
Pensando que faziam o bem?
       Quem sabe a mando, mas nunca amando.

Aos que ocultam os seus fins ou os pervertem vale a admoestação: Procurai o que é agradável ao Senhor. Porque tais coisas que tais homens fazem ocultamente é vergonhoso até falar delas. Mas tudo isto, ao ser reprovado, torna-se manifesto pela luz. E tudo o que se manifesta deste modo, torna-se luz (Ef. 5, 10,12-14).

Para aqueles que pensam fazer o bem vencer pela intransigência, injustiça, manipulação, dureza e influência vale o alerta: Ele que formou o coração de cada um, está atento a cada uma das suas ações. Não vence o rei pelo numeroso exercito, nem se livra o guerreiro pela grande força. O cavalo não é penhor da vitória, nem salva pela sua resistência. Eis os olhos do Senhor pousados sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua bondade (Sl. 32, 1-18).

Rúbio D.



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