Recriando a Igreja

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Introdução

Fui numerário do Opus Dei (OD) por mais de dez anos e já não sou mais faz também mais de uma década. Para a perplexidade de alguns leitores digo que até hoje tento entender tudo que se passou comigo e o que é o OD.

Uma das conclusões que cheguei está narrada no texto “Reflexões sobre o modus operandi do Ous Dei” que está no site opuslivre. No referido texto esta a minha percepção sobre a dúbia relação entre fins e meios no modo de agir do OD. Resumindo o que discuto no referido texto, que também é opinião de muitos outros, creio que os freqüentadores dos centros do OD, seus cooperadores e muitos dos supernumerários pensam que as coisas boas que recebem do OD são a finalidade da Obra, embora estas coisas sejam simplesmente meios para que se realize a verdadeira finalidade. É um pouco sobre esta finalidade que quero discorrer neste meu novo texto.

Adianto ao caro leitor que esta minha reflexão tem um certo tom de teoria conspiratória. Apesar de não ser adepto desta linha de raciocínio e argumentação, acho que ela pode se aplicar ao que vou analisar.

Também esclareço que não sou especialista em direito canônico e, portanto, algumas das minhas definições ligadas a estruturas de governo da Igreja podem ter algumas incorreções.

A Prelazia Pessoal

Segundo o Fundador do OD, ele viu de modo claro e completo, por graça de Deus, como a Obra deveria ser. Cumprindo o imperioso mandato divino, a Obra foi se fazendo e teve que se enquadrar nos moldes jurídicos e reguladores que existiam na Igreja da época da fundação, mesmo que estas formas fossem uma camisa de força, pois nenhuma delas era de fato adequada ao que a Obra deveria ser.

Finalmente, surgiu a figura canônica chama Prelazia Pessoal, que os próprios membros da Obra ajudaram a configurar, como a forma definitiva que se ajustou ao que o OD sempre almejou. O termo pessoal se refere ao fato de que a jurisdição da Prelazia recai sobre pessoas, onde quer que estejam e não sobre um determinado território, como é o caso das dioceses. O Prelado que dirige esta Prelazia Pessoal é um Bispo.

Os Bispos e suas jurisdições

Existe a figura da diocese pessoal, ou seja, as dioceses cuja jurisdição recai sobre pessoas onde quer que estejam, como ocorre com as capelanias militares, ou pequenas comunidades ortodoxas católicas que estão espalhadas por várias dioceses territoriais. As incontáveis dioceses territoriais juntamente com as dioceses pessoais, que existem em menor número, e ainda com outras formas de organização eclesial (prelazias territoriais, etc) são células que compõe o Universo Católico, que tem como primaz o Bispo de Roma, o Papa. Nacionalmente estas células formam as Conferências Episcopais Nacionais, como é o caso da CNBB no Brasil.

Normalmente à frente destas células está o Bispo, que apesar de ter jurisdição limitada, territorial ou pessoal, é um pastor da Igreja Universal que, em comunhão com o Papa, governa a Igreja. O Bispo deve zelar pela mensagem universal de Cristo e não por uma das suas facetas específicas. A mensagem universal de Cristo não é só aquela vivida ao modo dos jesuítas, carmelitas, carismáticos, focolares ou por outras comunidades de modo especial. A mensagem universal de Cristo pode, isto sim, ser vivida de modo particular e com muita riqueza e frutos dentro de uma comunidade jesuíta, carmelita, carismática ou do Movimento dos Focolares, para citar exemplos.

Eu diria que o Bispo, na sua jurisdição e em comunhão com toda a Igreja, deve zelar pelos diferentes caminhos e espiritualidades que levam a Deus.

Ordens Religiosas, associações e movimentos

As Ordens religiosas, cada uma com as suas características próprias, as associações, tais como a dos Vicentinos, e as diversas formas de movimentos e manifestação comunitárias, tal como a Renovação Carismática, vêm enriquecer a Igreja e mostrar ao mundo cristão-católico diversas formas de se chegar a Deus. Nem todas as formas de espiritualidade agradam a todos e cada católico é livre para escolher a que mais lhe aprouver, se quiser escolher uma em particular.

Estas entidades, ao contrário das dioceses territoriais e pessoais, têm uma espiritualidade própria que as caracteriza, como exemplo basta comparar uma comunidade contemplativa de Carmelitas e a comunidade fundada por Madre Tereza de Calcutá, ambas são magníficas a seu modo.

Assim como no caso dos religiosos, algumas das associações e movimentos católicos têm um governo central.

Quem está à frente da Ordem Religiosa, associação ou movimento, que normalmente não é Bispo, tem uma jurisdição sobre a sua comunidade, sobre o seu modo de viver característico e de como é divulgada a Boa Nova pelos seus associados.

A Prelazia Pessoal do OD

A Prelazia do OD tem um governo central em Roma bem perto da Cúria Romana e do poder. Esta Prelazia pregando a santificação do cotidiano e demais valores tradicionais católicos tem uma pregação universal para todo a cristandade.

A espiritualidade universal do OD é propagada pelos seus membros, principalmente numerários(as), que são recrutados pela ação proselitista agressiva da Obra. Este proselitismo chantagista de consciências, feito metodicamente e com profissionalismo, leva o OD a um crescimento constante. Ao OD pertencem leigos celibatários (numerários(as) e adscritos(as)), podem inclusive serem membros adscritos sacerdotes diocesanos, tem membros casados (supernumerários(as)), cooperadores que podem ser cristãos e não-cristão, clérigos e até religiosos. Não nos esqueçamos também que até crianças de 14 anos e meio já podem ser membros celibatários da Obra com o nome de Aspirantes. Uma outra classe de associada celibatária, que a mim me causa perplexidade, é a das numerárias auxiliares cuja função “ou vocação” como a Obra chama é cuidar das tarefas domésticas dos Centros da Obra.

Convém ressaltar que os seus sacerdotes numerários são em primeiríssimo lugar para servir a Prelazia. A respeito deles é até um pouco confuso falar, pois um rapaz com vocação sacerdotal jamais seria admitido como numerário. Mas, uma vez numerário, ele pode ser chamado para ser sacerdote para servir a Obra. Deste modo, a Obra terá os seus sacerdotes com o seu espírito, já que um padre diocesano e muitíssimo menos um religioso tem plenamente o seu espírito. Exceção feita a um sacerdote diocesano que por “vocação divina” pode ser incorporado à Obra como adscrito. Este membro adscrito, via de regra, não atende os membros numerários(as) e supernumerários(as).

Convém ainda dizer que as obras corporativas do OD existem para produzir vocações para a Obra.

Como esta Prelazia do OD prega uma mensagem universal que abarca todo mundo católico e é presidida por um Bispo com jurisdição pessoal, a Prelazia do OD pode ser encarada, a meu ver, como uma Igreja Católica dentro da própria Igreja Católica. Eu creio que este era o temor dos Bispos que se opunham ou tinham dúvidas sobre a promulgação desta forma jurídica

O caráter divino da constituição do OD é ainda ressaltado pelo fato do seu Fundador ter sido declarado Santo.

Reforma da Igreja

Lutero, num primeiro momento, queria reformar a Igreja Católica da qual ele era membro e sacerdote. Como muitos outros na sua época, pedia que fosse convocado o Concílio. O Concílio reformador não foi convocado e a situação chegou ao ponto que o processo de reforma causou uma ruptura definitiva na Igreja Católica.

O processo de reforma da Igreja que resultará da ação do OD é muito diferente daquela que iniciaram os reformadores protestantes e até mesmo dos métodos utilizados pelos contra-reformadores católicos.

A instituição do OD como Prelazia Pessoal recriou a Igreja Católica no seio da própria Igreja Católica. A Igreja Católica do modelo do OD é aquela idealizada pelo seu Fundador e colaboradores.

Esta maneira de se ver o OD explica o seu caráter agressivamente proselitista, a sua finalidade centrada no seu auto-crescimento, a sua atuação baseada em influências e a sua amplitude de apostolado. Isto também explica o profissionalismo e o pragmatismo existente no OD.

O Fundador dizia que de 100 almas lhe interessavam as 100. No OD há lugar para todos os tipos de pessoas. No Opus Dei há lugar para solteiros, casados, sacerdotes diocesanos, bispos, colaboradores religiosos, não-cristãos, enfim, para todos. Há até lugar para ex-membros, que aceitando o seu “erro” venham, penitentes, ocupar um lugar na Obra, de modo que possam melhor pedir a Deus para que os perdoe de ter saído do OD e lhes conceda a salvação.

Isto também explica o porquê de OD, Igreja, Vontade de Deus, diretrizes dos diretores e palavras do Fundador serem rigorosamente sinônimos.

Paraíso na Terra

Fantasiando, imaginemos que o OD com seu intenso proselitismo e profissionalismo ao invés de 84.000 membros chegue a ter 80 milhões de membros. Em conseqüência, que tenha 600 milhões de cooperadores. Nestas condições, a ortodoxia do catolicismo, do modo do OD, será implantada de modo inexorável sobre a Terra.

Nesta época magna o então 4º andar da Clínica da Universidade de Navarra que abriga os numerários(as) com grande depressão ou em grave crise, terá sido ampliado e ocupará vários edifícios, inclusive, a exemplo do Colégio Catamarã na área da educação, médicos brasileiros ligados ao OD poderão pagar royalties à entidade mantenedora da Universidade de Navarra para termos aqui as nossas próprias clínicas com tecnologia navarra.

Quem sabe ainda poderão criar os numerários auxiliares, que a exemplo das numerárias auxiliares, sejam por vocação serviçais da comunidade. Teremos uma sociedade católica disposta em castas imutáveis.

A idade mínima para ingressar na Obra como numerário(a) poderá ser reduzida para nove anos e três meses. Para que moços e moças não tenham muito contato, e para que a virtude da santa pureza se mantenha íntegra, poderão ser criados cinemas que tenham seções separadas para homens e mulheres, além de cinemas pode haver ônibus, restaurantes, bares, clubes, academias de ginástica etc. Sempre, é lógico, com o suporte de uma metodologia científica, e pedagógica que justifique a discriminação por sexo.

Quem sabe o Papa deste tempo futuro seja membro do OD e poderá até receber correções fraternas do seu Prelado, quando ele ousar, como o querido Papa João Paulo II, rezar em uma sinagoga judaica, ou ainda quando admitir, com toda humildade e simplicidade, que a Igreja Católica e seus membros cometeram erros.

Nestes tempos quem sabe o OD, mais poderoso, poderá novamente fazer “pequenas correções de estilo” no livro Caminho do seu Fundador e o ponto 115 voltar a ser como está na edição espanhola de 1950 e 1955: “Minutos de Silencio”. Quédese esto para ateos, masones y protestantes, que tienen el corazón seco. Los catolicos, hijos de Dios, hablamos con el Padre nuestro que está en los cielos. Pois atualmente, depois de “pequenas revisões de estilo” nas quais sumiram os ateus e os protestantes o referido ponto ficou: “Minutos de Silencio”. Dejadlos para los que tienen el corazón seco. Los catolicos, hijos de Dios, hablamos con el Padre nuestro que está en los cielos (ref.: site Opuslibros, item Em Tus Escritos: Introduccion a 'La doble doctrina del Opus Dei'.- Compaq y Brian, Cap. VI). Na referência citada aparecem outras “pequenas correções de estilo” referentes aos judeus e a outros assuntos.

Por ultimo, quem sabe o Marquesado de Peralta, solicitado pelo Fundador do OD e repassado após vários anos a sua família de sangue, termo usado na Obra para se referir aos pais dos numerários(as), poderia evoluir para um título de príncipe ou mesmo de rei. Deste modo o Fundador também poderia ser nomeado patrono da fidalguia e da realeza.

Rúbio D.

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