Os fins justificam os meios

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Testemunho (quase) inteiramente favorável ao Opus Dei

Ao escolher este título, "Luzes" da minha experiência no Opus Dei, pretendi tornar claro que aquilo que se segue pretende ser um testemunho das experiências positivas que a Obra me proporcionou a mim e a outras pessoas.

Quais as razões para escrever este texto?

  1. Em primeiro lugar, pretendo completar o meu primeiro conjunto de testemunhos para a web - Luzes e sombras da minha experiência de supranumerária do O.D." - no qual acentuei muito mais os aspectos negativos do que os positivos, sem dúvida influenciada pela leitura de tantos textos críticos que encontrei em "opuslibros"...
  2. Em segundo lugar porque ao ler a resposta à [[Opus Dei info:FAQ|]: "OpusLibros no se posiciona en contra del Opus Dei. Los escritos que se publican en OpusLibros no son necesariamente críticos al Opus Dei, ni tienen por que serlo. OpusLibros procura ser un espacio donde personas que han tenido contacto con el Opus Dei pueden registrar libremente su experiencia con la organización. La mayoría de las veces, esa experiencia es una mezcla de aspectos positivos y negativos" – fiquei a pensar que – em consciência – devia acentuar mais alguns aspectos positivos da minha experiência pessoal e da experiência de muitas pessoas que comigo conviveram;
  3. Finalmente e, sobretudo, porque através deste testemunho posso fazer eco da opinião de muitas pessoas – designadamente de ex-supranumerários/as e de ex-cooperadores/as – que, tendo-se afastado da Obra, consideram que o tom geral de "opsulibros" é demasiado pessimista e negativo. Na verdade, ao longo dos últimos meses, surgiram, de forma espontânea, diversos contactos com pessoas que me transmitiram essa posição:
    • É o caso de pessoas que encontrei na cidade onde vivo;
    • Bem como de participantes no "chat" Exodo
    • E ainda de pessoas que, tendo obtido o meu email (através das orejas ou de outros meios), me contactaram directamente para "conversar" sobre assuntos relativos à obra.

Podem dizer-me: claro, essas pessoas não foram sujeitas aos processos que a Obra reserva para os membros numerários/as e agregados/as… Sabe-se bem que os supranumerários/as podem ter uma vida bastante próxima do normal; e por maioria de razão, o mesmo se passa com as muitas pessoas que participaram nas actividades de S. Rafael e de S. Gabriel, mas não "apitaram" ou nem sequer foram sujeitas à pressão que a obra faz para que tal suceda.

Isto é, sem dúvida verdade! Mas não significa por si só que a experiência dessas pessoas seja irrelevante. Antes pelo contrário, são precisamente os aspectos positivos que a obra teve na minha vida, como na de milhares de outras pessoas que explicam o reconhecimento que a Igreja atribuiu à instituição.

Benefícios do contacto com as actividades da Obra

Junto-mo às muitas pessoas que escreveram na web testemunhando que – independentemente de tudo o resto - a participação nas actividades promovidas pela obra foi muito importante para o seu (também para o meu) crescimento na fé cristã e para a "descoberta" da possibilidade de ter uma vida de intimidade com Deus.

Claro que se pode dizer com razão que os aspectos mais positivos da formação doutrinal e espiritual não são específicos da obra, antes correspondem a práticas seculares da Igreja que a obra se limitou a recolher. Mas a verdade é que dificilmente eu teria tido acesso a esse "tesouro da Igreja" se os responsáveis dos centros da obra que frequentei não mo tivessem dado a conhecer.

E o mesmo se pode dizer em relação a muitas outras pessoas: sabemos que o mundo ocidental está extremamente secularizado, pelo que são cada vez mais aqueles que nascem em famílias nas quais não há possibilidade de conhecer de perto a fé cristã; como também é crescente o número de pessoas que, ainda que tendo nascido em famílias tradicionalmente cristãs, não encontram ao longo da sua vida de jovens e de adultos ajudas eficazes para a vivência da fé.

Para mim, no tempo de adolescência e de juventude, a obra foi essa ajuda eficaz. Posteriormente, tive tanta sorte que encontrei na Igreja outros caminhos, bem mais simples e adequados do que o O.D. para a minha vida de mulher casada e mãe de filhos pequenos.

Há algum tempo, uma antiga amiga dos tempos do clube – que entretanto casou com um colega que comigo trabalha – dizia-me: "Tivemos tanta sorte com a ajuda que recebemos nos clubes da obra. Agora é bem mais fácil orientarmos a educação dos nossos filhos, distinguindo o essencial do acessório." Trata-se de uma de várias irmãs que não foram "perseguidas pelas directoras" para que apitassem e que, por isso, guardam desses tempos recordações muito positivas.

E algo de semelhante se passa nas actividades de S. Gabriel:

  • Pessoas que durante anos viveram com a nostalgia de se sentirem distantes de Deus e que encontram aí ajuda para a sua vida espiritual (e não só);
  • Mulheres casadas que se sentem muito sós e incompreendidas pelos maridos e que na obra encontram a ajuda de que precisam;
  • Pessoas que passaram pelas actividades de S. Rafael e que – por vezes depois de muitas "cambalhotas" dadas na vida – encontram paz e serenidade nos meios de formação da obra.

Dou o exemplo concreto de uma conhecida minha dos tempos do clube que encontrei há umas semanas num café e que me contou a "história da sua vida": tinha-se casado, depois tinha-se separado porque o marido revelava perturbações mentais sérias; não tinham tido filhos; o marido acabara por se suicidar; ela dedicou-se inteiramente à sua profissão de professora e voltara a participar nos meios de formação da obra. Era cooperadora e, pela primeira vez na sua vida adulta, sentia-se em paz.

Outras qualidades da obra a que habitualmente não se faz referência

Já em tempos me referi ao facto muito positivo de nunca ter detectado nos centros e actividades da obra, o menor sinal de discriminação racial. Algumas pessoas escreveram dizendo que infelizmente talvez não fosse sempre assim, mas pelo muito que já li na web creio que – a existirem – tais discriminações serão realmente casos isolados, fruto da deformação de personalidade de algum director ou directora. Pela minha experiência de longos anos, estou certa de que não existe qualquer orientação superior no sentido de as pessoas serem melhor ou pior tratadas em função da raça. Algo distinto – e que creio que pode acontecer por exemplo em países da América latina – é o facto de que pessoas de raças não europeias sejam discriminadas por pertencerem a sectores sociais mais desfavorecidos da população que a obra não pretende que frequentem os seus centros "de excelência".

Outro aspecto muito importante é que – se é certo que a obra tem uma obsessão com o assunto da pureza – a verdade é que há algumas consequências positivas disso mesmo, sobretudo a protecção contra o risco de abusos sexuais de menores ou outras pessoas indefesas por parte de adultos ou outras pessoas com essas tendências.

Infelizmente, sabe-se actualmente como estes fenómenos patológicos ocorreram (e ocorrem) nos mais diversos países, culturas e instituições; e como sucederam até mesmo nas instituições que deveriam ser as primeiras a proteger crianças e jovens, desde instituições religiosas (católicas também), até destacamentos da ONU em países subdesenvolvidos ou em situação de guerrilha…

Por isso, é algo bastante meritório que na obra existam tantos cuidados neste domínio que – ao menos pelo que vivi e presenciei durante mais de vinte anos – posso afirmar que seria tão difícil ocorrerem abusos desse género como na minha própria família, a qual é para mim o padrão mais elevado de comportamento…

A "outra face da moeda"

Naturalmente que – como sabemos todos os que conhecemos a obra com profundidade - é que este rol de coisas positivas não equivale aos objectivos últimos da obra. Se se tivessem limitado a ajudar-nos e a deixar-nos seguir o nosso caminho, não teria havido grandes problemas. Como bem sabemos, a obra não se contenta com isso; quer mais, muito mais; quer que grande parte das pessoas que passam pelos seus centros acabem por pedir a admissão "a bem ou a mal", independentemente dos projectos e sonhos que cada um tenha dentro de si. E depois de captados, tudo faz para extrair o mais possível dos "peixes que pescou". Por definição, aqueles que estão sujeitos a maior pressão e controle são os que mais sofrerão…

Por isso, considero muito significativa a ideia transmitida por Josgar no seu texto de 13/04/05: "En definitiva y como ya he dicho era un chico de S. Rafael… feliz. Y así hubiese seguido yo, que nada más necessitaba. Pero en la vida igual que no hay marcha atrás, tampoco se puede detener nada. Las cosas siguen por ley natural su camino, y el mio era terminar en el Opus Dei. (…) Yo no quería compromisos, no quería cambiar mi vida. Era feliz ya, para que variar? Pero estaba claro que la situación no podía seguir así. Por supuesto no me lo dijeron jamás, pero yo entendí que o pitaba, o me iba." (Nota no final)

Alguns realmente vão-se embora por sua própria iniciativa, mas a maior parte das vezes em que isso sucede é apenas porque – por alguma razão nem sempre muito clara - a obra não está especialmente interessada neles. Os demais, aqueles que a obra quer que fiquem, ao passar a "linha de fronteira" (que quase sempre significa "apitar"), entram numa espécie de remoinho de águas profundas que os puxa com toda a força e de onde já não conseguem sair; salvo se "sentindo a vida em risco", reunirem todas as suas forças – ou pedirem ajuda externa – para se conseguirem salvar!

Conclusão

Como já foi repetidamente afirmado, o grande problema da obra é o de considerar que os fins justificam os meios. Por isso, as pessoas podem ser instrumentalizadas em função dos seus objectivos que passam por crescer continuamente, de forma a sobreviver.

E aqui está o paradoxo com que muitos que, como eu, fomos efectivamente ajudados deparamos: como permanecer ligada a essa estrutura que – sob a capa de fazer bem a alguns – assenta em enormes contradições internas e pratica verdadeiros crimes contra os seus membros mais "indefesos"?

Em meu entender, só o desconhecimento real do que se passou (e passa) na obra pode explicar a forma benevolente como tem sido tratada pela Igreja e, em particular, pelo Papa João Paulo II. Em hipótese alguma um homem da envergadura humana e espiritual de Karol Woytila poderia aceitar a violação das consciências e da liberdade individual que sucede na obra, se disso tivesse tido conhecimento efectivo. Mantenho a esperança em que algum dia a verdade vencerá a teia de segredos que a obra construiu para se proteger!


Nota: O testemunho de Josgar é também muito impressionante porque se trata de alguém que conheceu a obra em clubes e centros orientados por agregados e que pediu a admissão também como agregado; os detalhes do seu relato – características das pessoas, dos centros e das actividades – tornam este testemunho algo especial no conjunto das centenas ou milhares de testemunhos recolhidos na web. Pessoalmente, gostaria muito que Josgar nos contasse mais coisas da sua experiência pessoal antes, durante e após deixar a obra…

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