Mistérios por resolver

From Opus Dei info

Dedicatória: Este texto é um texto muito simples, mas muito "sentido", porque revela o mais íntimo das minhas inquietações "vocacionais" entre os 14 e os 18 anos. Queria, por isso, dedicá-lo a três amigos – Josgar, Miguel L. e Carr -que conheci através da web e do chat êxodo e que, tal como eu, foram vítimas de um dos maiores males praticados pela O.: a prática de "caçar" adolescentes (ainda mal saídos da infância) para (n)os sujeitar a um processo de "formatação" integral!


Contents

Introdução

O secretismo de que o O.D. se rodeia faz com que, mesmo aqueles que se aproximam da instituição e dela fazem parte, vivam num estado permanente de semi-ignorância em relação a muitas das realidades da O. A semi-ignorância faz nascer uma sensação, por vezes muito intensa, de "enigma" por resolver…

Esse estado de semi-ignorância e essa sensação de enigma foram constantes ao longo das décadas em que estive ligada à O. Traduziam-se em dezenas e dezenas de "pequenas" dúvidas, mas também em muitas outras já não tão pequenas… a ponto de pessoalmente me ter habituado a funcionar interiormente com algo próximo de um "espírito de detective":

  • Observando sempre tudo o que se passava, especialmente o comportamento das directoras;
  • Estando atenta ao que se dizia, especialmente em momentos de descontracção: numa tertúlia, numa refeição, num passeio…;
  • Aprendendo a ler nas entrelinhas dos textos da O. – designadamente dos "Notícias";
  • Relacionando factos, frases e indícios aparentemente desconexos…
  • E, de vez em quando – muito de vez em quando – fazendo alguma pergunta a uma directora, de preferência uma pergunta não muito directa em relação ao assunto que pretendia esclarecer, para "não levantar suspeitas".

Devo confessar que esta actividade interior acabou por me dar um certo "gozo", porque eram tantos os assuntos que nunca me foram explicados e porque o sistema de vida da Obra é tão complexo e totalizante que alguém que pense por si próprio, tem de ir "coleccionando" inquietações e mistérios aparentemente insolúveis.

"Opuslibros" tem sido uma ajuda preciosa para ir satisfazendo essas inquietações e resolvendo alguns desses mistério. Ainda assim, estou decidida a pedir a vossa ajuda no esclarecimento de "mistérios" que dentro de mim permanecem inexplicáveis.

Porquê uma ameaça de um castigo colectivo num convívio?

Num dos primeiros convívios que fiz já como membro da Obra sucedeu algo de bastante curioso:

  • Tinha-se organizado um piquenique na mata e, ao transportar a comida, algumas das mais jovens deixaram cair um suporte com comida; caiu tudo no chão e ficou estragado;
  • Ficámos incomodadas como sempre se fica quando acontece algo deste género; limpámos o lixo que fizemos e tratámos de almoçar aquilo que se tinha salvo;
  • Dias depois, no fim de uma palestra espiritual, uma das directoras passou-nos uma descompostura porque não tínhamos feito um pedido de perdão colectivo por esse disparate; e que devíamos cumprir igualmente uma penitência colectiva pelo que tínhamos feito.

Passei o resto do convívio à espera desse "castigo colectivo" que nunca surgiu… E ainda hoje não consegui perceber porque é que se tinha de pedir perdão e ser-se castigado por um mero acidente, no qual ninguém teve culpa.

A existência de grupos de supranumerárias "à parte" em função da origem social

Ao fim de alguns anos de pertença à O. ouvi falar em supranumerárias que se reuniam em centros que eram simultaneamente administrações ordinárias de outros centros… Julguei que a razão de ser fosse apenas "geográfica", ou seja que essas pessoas vivessem mais perto desses centros-administrações.

Mas, certo ano, ao ver a lista de convívios anuais para decidir em qual me inscreveria, perguntei se podia ir a um convívio que estava marcado com um "B" à frente. Disseram-me que não, porque esses convívios eram para supranumerárias de centros "mais modestos" do que o meu… Devia procurar inscrever-me num convívio que estivesse assinalado com um "A"!

Fiquei sem palavras! E nunca consegui falar a ninguém dessa espantosa descoberta: havia supranumerárias tipo A e supranumerárias tipo B!

Pensei para comigo: é compreensível que, durante algum tempo, se tivessem em conta essas tais diferenças sociais para que pessoas que porventura tivessem hábitos "mais simples" não se sentissem constrangidas. Mas como se explica que numa instituição pretensamente "fraterna" isso se mantivesse assim para sempre?

Fiquei revoltada com esta "descoberta" dentro do mundo secreto da O. Mas havia algo que ainda me atormentava mais: E se eu tivesse descoberto que era uma supranumerária de tipo B? Assim podia imaginar melhor o que sentiriam as supranumerárias de tipo B ao saberem da existência de supranumerárias de tipo A…

Autorização das directoras para passar de Numerária a Supranumerária?

Desta vez decidi começar pelo "mistério" do O.D. que mais me intriga porque é aquele que maior importância teve na minha vida: tentar perceber como foi possível que – por insistência minha – as directoras do meu centro me tivessem permitido passar do estatuto de Numerária para o de Supranumerária.

Quem tiver tido a paciência de ler o meu testemunho mais íntimo (Fazendo o tempo andar para trás) ficou já a saber aquilo que comigo se passou e que aqui procurarei sintetizar:

  • "Apitei" com cerca de 14 anos e meio, totalmente forçada pela numerária que me "atendia" e pela pressão global do clube que frequentava;
  • Naturalmente – como sucedeu com tantos de vós – ninguém me deu alternativa senão pedir a admissão "como associada numerária" e muito menos me explicou que numa primeira fase todas éramos juridicamente Supranumerárias;...
  • Com 15 anos e tal fiz a "admissão" como Numerária (julgo que é com a admissão que uma pessoa se torna juridicamente Numerária, mas não estou certa);
  • A partir dos 16 anos começaram a pressionar-me para fazer a "oblação"; por essa altura fiz o meu primeiro convívio de Verão e aí "descobri" parte dos horrores da vida de numerária;
  • Além disso, por essa altura, já tinha passado o meu entusiasmo inicial (que mais não era do que resultado da exploração da imaturidade de uma adolescente) e tinha tomado consciência de que não tinha qualquer vocação para o celibato;
  • Ao ouvir falar dos célebres "votos" que então ainda se faziam (estávamos no final dos anos 80 e ainda a O. ainda não era prelatura pessoal), tomei uma decisão muito firme: ou passava a ser Supranumerária ou teria de deixar a O. E comecei desde logo a viver "liberta" das obrigações de uma Numerária (por exemplo, vivendo em casa dos meus pais, recusava-me em absoluto a participar nos momentos de "vida em família" das numerárias: meditação e missa matinais; almoço e tertúlia; etc.);
  • Mas a minha pretensão deparou com fortíssimas resistências da parte das directoras; durante quase dois anos usaram todos os meios de pressão para me convencerem a "ser generosa e entregar a minha vida inteira a Deus";
  • Mas eu nunca desisti da minha posição: em consciência estava seguríssima de que Deus não me pedia que seguisse uma vida celibatária;

Entretanto, das dezenas de jovens e adolescentes que iam apitando nos clubes, muitas passavam a Supranumerárias (de facto porque de direito já o eram, pelo menos até à "admissão") ao fim de algum tempo;

  • Claro que eu invocava esse argumento para que também comigo sucedesse o mesmo. As directoras insistiam uma e outra vez: no caso das outras pessoas tinha-se percebido melhor que o lugar delas era como Supranumerárias; mas quanto a mim tal não se passava, antes pelo contrário, tudo indicava (menos a minha consciência, pensava eu…) que a minha vocação era claramente de Numerária;
  • Os meses foram passando; eu não queria de forma alguma romper a amizade que sentia que tinha criado com as pessoas da O., mas recusava-me a fazer a oblação e muito menos a fazer votos do que quer que fosse;
  • Cheguei a um estado de ansiedade tal que me recusava sequer a voltar a tratar desse assunto. A vida ia decorrendo e eu comportava-me como uma rapariga normal da minha idade que – além disso – procurava viver o plano de vida que me tinham proposto e participar nos meios de formação da O.;
  • Quando entrei na Universidade tive oportunidade de fazer uma viagem ao estrangeiro; as directoras pediram-me – como última tentativa – que nessa estadia fora do meu país eu frequentasse os meios de formação das numerárias do centro do país de destino;
  • Concordei, porque, estando sozinha fora do meu ambiente normal, me pareceu que "nada de mal" me poderia acontecer. E assim foi: aquilo que presenciei no centro da Obra desse outro país apenas me levou a confirmar a certeza de nunca, mas mesmo nunca poder sobreviver num tal ambiente artificial e de ausência de liberdade;

Semanas após ter regressado, as directoras do meu centro disseram-me finalmente que então poderia fazer a "oblação" como Supranumerária. Fiquei muito contente e devo reconhecer que pelo menos os dois anos subsequentes foram para mim muito felizes. Sentia que podia aproximar-me mais de Deus sem ser forçada a ter uma vida fora do normal!

Perante esta minha experiência pessoal, foi com grande admiração que – com o passar dos anos e, sobretudo, depois de ler tantos testemunhos de ex-numerários/as em "opuslibros" – me apercebi de que nunca conheci ou ouvi falar de um caso idêntico ao meu. São muitas as pessoas que aqui na web afirmaram que bem teriam preferido pedir a admissão como Supranumerários… mas nenhuma disse que o tinha conseguido…

Será então que a minha história é assim um caso tão isolado?

E, se a resposta for afirmativa, como se explica que pura e simplesmente as directoras que me orientaram não tenham decidido que – face à minha resistência – eu teria de deixar a O.?

Agradeço antecipadamente a vossa ajuda na "resolução deste mistério"; é para mim crucial compreender o que sucedeu na minha vida para poder viver com plena liberdade interior, consciente do meu passado e consciente das coisa positivas e das menos positivas que a Obra me fez viver!

Qual a função do Colégio Romano de Santa Maria?

Muito cedo comecei a ouvir falar num centro maravilhoso, situado em Castelgandolfo, perto da residência de Verão do Papa (que pude confirmar que era mesmo encantador durante a minha participação num dos Univs), no qual algumas numerárias escolhidas iam fazer um curso fantástico e ter a oportunidade de estar dois ou três anos no coração da Obra. O máximo eram naturalmente as visitas do Padre que podiam suceder a qualquer momento e deixavam a casa virada do avesso...

Confesso que nos meus tenros 15 anos pensei que seria para mim uma oportunidade fantástica. Entretanto o entusiasmo foi diminuindo, não só porque pretendia ser apenas supranumerária, mas também porque alguns dos relatos das "contempladas" com essa maravilha me criaram bastantes dúvidas.

A primeira dessas dúvidas é a de que, na verdade, não se percebia bem em que consistiam os estudos no Colégio Romano feminino. Entendia que no Colégio Romano masculino, os numerários se preparavam para ser ordenados; mas no equivalente feminino ouvia-se falar de um "curso de ciências da educação" e de estudos de "Pedagogia"… Mas, por outro lado, também parecia que estudavam matérias filosóficas como Metafísica e outras.

Na verdade, uma numerária que tinha sido minha grande amiga de infância foi enviada para lá e eu nunca percebi o que é que ela estava a estudar. No centro diziam pouca coisa; os pais pouco mais saberiam do que eu; ela nada explicava. Que mistério! Fui percebendo que as professoras das aulas dos cursos e convívios anuais eram quase sempre pessoas que tinham estado no Colégio Romano (algumas mais antigas quando o dito C.R. ainda funcionava na casa central de Roma). Ora essas aulas centravam-se em matérias filosóficas e até de introdução à teologia… Será que existiam mesmo estudos de Psicologia e de Pedagogia?

Na verdade, na minha ingenuidade considerava que certamente que a Obra preparava muito bem as pessoas que iam ter funções de responsabilidade e de ensino dentro da Obra, ou seja, todas as numerárias. E por isso me parecia excelente que algumas pessoas se preparassem a sério tanto em ciências religiosas como em ciências pedagógicas.

As dúvidas sobre as vantagens do C.R. surgiam também com os relatos feitos nas tertúlias que me deixavam uma sensação estranha. Contavam-nos:

  • Que no Colégio Romano se tinha de trabalhar muitíssimo;
  • Que diariamente todas tinham de ajudar na limpeza da casa e em encargos materiais, que não podiam ser descuidados mesmo na época de exames;
  • Que tinham de ter sempre preparadas actuações do coro das alunas e outras "exibições" para o caso do o Padre as visitar, o que podia acontecer a qualquer momento; nessa altura todo o Colégio parava e centrava-se no acompanhamento do Padre;
  • Que praticamente não havia tempo para visitar Roma, nem para fazer apostolado directo com as pessoas, nem sequer com gente que habitasse na mesma zona;
  • Que a língua oficial era o castelhano e por isso a maioria das alunas que frequentava o Colégio Romano não chegava a aprender a falar italiano;
  • Que, em contraste, havia aulas de latim e diversas outras "originalidades".

Pelos meus 17 anos já tinha concluído que afinal seria um local assustador para viver durante anos sem a possibilidade de visitar o próprio país e de ver a família; ficando quase permanentemente fechada dentro de uma linda casa, mas impedida de conhecer o que se passava fora dela. Obrigada a estudar mais e mais, mas não podendo invocar isso para pôr em segundo plano tarefas caseiras de limpeza, arranjo de roupas do oratório, etc. Pensei mesmo que poderia ser um inferno porque nada me causa tanta irritação como estar sujeita a um apertado controle da minha vida, sem me deixarem sequer estabelecer prioridades; e, na verdade, se havia estudos a cumprir e exames a fazer, não me parecia que limpar os vidros de um casarão três vezes por semana fosse algo fundamental! Mas isso – e muitas outras tarefas - era dado como exemplo da necessidade de "em Casa" se viver sempre o cuidado com as "coisas pequenas"…

Qual a função do Centro de Estudos dos Numerários/as?

  • Com as devidas adaptações, também se mantém uma grande incógnita acerca dos estudos que os numerários/as realizam nos dois anos de "Centro de Estudos". Na verdade, penso que o que sei aprendi-o nas leituras da web e não directamente pela minha irmã e pelas muitas amigas da minha geração que por lá passaram. É tal o hábito de secretismo na Obra, que pura e simplesmente eu não fazia perguntas sobre as "actividades internas" do Centro de Estudos. Participava em algumas actividades com universitárias, até podia ir a uma tertúlia cultural, mas nada sabia do que se passava nos andares de cima reservados às numerárias.
  • Pensando agora no assunto com a perspectiva que o tempo dá as todas as coisas, essa minha ignorância – em especial no que se refere à minha própria irmã – era um "non sense" total: o que poderia haver de tão sigiloso que não pudesse ser contado a uma irmã de sangue que era também supranumerária?!
  • Durante algum tempo tive a esperança que o programa do Centro de Estudos fosse um programa de conteúdo verdadeiramente útil para a vida de uma numerária: além da formação relativa ao espírito da Obra e dos estudos de carácter religioso, dedicariam certamente atenção a matérias de psicologia e pedagogia nos diferentes estados de evolução da pessoa humana. Pois se as suas tarefas principais iriam ser a de acompanhar a formação humana e espiritual de crianças, adolescentes, jovens, adultos (em todas as suas variantes etárias), seria de esperar que o "profissionalismo" com que, em princípio, na Obra se tratavam todos os assuntos, levasse a que o programa de formação de jovens numerárias desse a atenção necessária a todas essas matérias…
  • A pouco e pouco fui tendo dúvidas de que assim fosse… Nem a minha irmã, nem qualquer outra numerária alguma vez me falou em estudos desse género; na biblioteca do Centro de Estudos havia poucos livros e quase se reduziam a livros espirituais e pouco mais… Durante muitos anos pediram a minha colaboração para diversas actividades com universitárias, mas nunca ouvi dizer que uma supranumerária, cooperadora, ou qualquer outra pessoa que não "numerárias e sacerdotes" entrasse nas zonas reservadas aos estudos das numerárias em formação.
  • Interrogava-me – e essas interrogações foram-se acentuando ao longo dos anos – como é que as ditas alunas do Centro de Estudos se preparariam para realizar tarefas em Centros de S. Gabriel: acompanhar mulheres casadas, com filhos, com profissões, com as múltiplas dificuldades que a vida coloca a quem efectivamente "vive no meio do mundo" e não dispõe de uma administração para lhe cozinhar as refeições ou lavar a roupa?!

Talvez ingenuamente ainda tenho esperança que alguém me explique que existia alguma orientação – por mais ténue que fosse – no sentido de preparar as numerárias para a enorme responsabilidade de "acompanharem e guiarem as vidas e as almas" de outras pessoas!

Como se realizava (e realiza) a actualização da formação dos numerários/as?

  • Nos famosos "cursos anuais" onde as numerárias desaparecem durante quase um mês para ressurgirem de novo como se estivessem estado "noutro mundo" (recordo-me de a minha irmã desconhecer acontecimentos da vida nacional como, por exemplo, qual o clube que vencera o campeonato nacional de futebol; algo que em meu entender não tem realmente grande importância, mas cujo desconhecimento inviabiliza qualquer conversa normal com a generalidade das pessoas, entre as quais se contam os próprios sobrinhos); nesses cursos anuais em que é que se ocupa(va) o tempo?!
  • Por uma curta experiência pessoal (ver os meus testemunhos) sei que carregam o horário desses cursos com aulas doutrinais, aulas de disciplinas filosóficas e teológicas, palestras e um sem fim de assuntos.
  • Mas pergunto se alguém se preocupa em actualizar a formação humana nas tais áreas da psicologia e da pedagogia, em função das tarefas que cada uma das numerárias irá desempenhar no ano seguinte: uma que passa de um centro de S. Rafael para um de S. Gabriel; e vice-versa; uma que esteve a trabalhar na Assessoria Regional e vai agora começar a dar aulas num colégio de adolescentes; etc.

Será que tem fundamento a suspeita que – ao fim de cerca de oito ou dez anos de pertença à Obra – me surgiu: a de que nós supranumerárias (que não tínhamos voto em qualquer assunto) éramos como que "cobaias" das directoras que nos orientavam e atendiam? E que porventura, os célebres "meios de formação pessoais" (talvez com a excepção da direcção espiritual dos sacerdotes) resultavam apenas de processos de formação "por tentativa e erro" por parte das numerárias?

Algumas conclusões provisórias

Ainda que continue à espera de esclarecimentos acerca da função do Colégio Romano de Santa Maria, recebi já a preciosa ajuda de Dionisio (03/07/05) em relação aos Mistérios por resolver de 01/07/05. Penso que se podem formular algumas conclusões (que dirijo expressamente à actuação dos numerários/as, mas que, com as devidas adaptações, se podem aplicar também aos agregados/as):

  1. Os numerários/as têm na Obra um papel fundamental de "orientação espiritual" (não uso aqui a expressão "direcção espiritual" para reservar esta última para a actividade exercida pelos sacerdotes) de todas as categorias de membros, dos cooperadores e da generalidade das pessoas que se aproximam da Obr.
  2. Porém, a formação intensiva que numerários e numerárias recebem no Centro de Estudos apenas integra, por um lado, componentes doutrinais e religiosas; e, por outro lado, aspectos de assimilação do espírito e regras da Obra.
  3. Não parece que alguma vez tenha existido qualquer preocupação com a formação em matérias tão importantes como Psicologia, Sociologia; Pedagogia e outras, para quem se prepara para exercer tarefas de "condução de outras almas".
  4. Além disso, ao longo da vida (designadamente nos famosos cursos anuais), o conteúdo da formação mantém-se dentro dos parâmetros usados no Centro de Estudos, pelo que não se verifica qualquer preocupação com a formação dos numerários/as em função das circunstâncias sociais e humanas em que concretamente se encontram a trabalhar (e que naturalmente não se mantêm estáticas ao longo do tempo)...

Apreciação

Estes factos são só por si bastante graves, porque revelam que os numerários/as que durante anos e anos recebem as conversas fraternas dos membros da Obra e atendem outras pessoas não dispõem de uma adequada preparação humana para orientar a alma e a vida dos "orientados".

E, como os assuntos tratados na conversa são bem mais vastos do que os versados na confissão e na direcção espiritual com o sacerdote, os riscos desta condução "apertada" da vida de outros podem ser muito elevados.

Vou tentar exemplificar:

  1. Como pode alguém que atende um outra pessoa distinguir entre problemas de ordem espiritual e problemas de ordem psíquica do "orientado"?
  2. Como pode aconselhar essa pessoa em matéria de relacionamento afectivo: relação de namoro, relação conjugal, relação com os filhos, relação com os pais, etc?
  3. Como pode compreender as especificidades de personalidade e carácter de cada um de forma a adaptar a multiplicidade de "regras da Obra" à pessoa concreta?

Bem, ao que parece, a forma como a "orientação espiritual" conduzida por leigos se concretiza depende inteiramente da experiência e da sensatez das pessoas em causa, pelo que tal "orientação" se reveste de riscos bem maiores do que a tradicional "direcção de almas" pelos sacerdotes:

  • Por um lado, porque esta "direcção espiritual" levada a cabo pelos sacerdotes se integra plenamente no seu "munus ministerial";
  • Depois, porque tal "direcção espiritual" se circunscreve, por definição, a matérias essencialmente espirituais;
  • Por fim, porque se espera que a preparação humana dos sacerdotes tenha sido mais cuidada; ao menos é o que se passa actualmente na generalidade dos seminários diocesanos e dos seminários das ordens religiosas. Será que o mesmo ocorre no Colégio Romano da Santa Cruz onde se realiza a formação dos sacerdotes numerários?

Consequências

As consequências negativas da "orientação espiritual" levada a cabo pelos directores/as sobre a vida de numerários/as e agregados/as estão à vista em centenas de testemunhos da web. Na verdade, numerários/as e agregados/as encontram-se sujeitos a um controle "apertadíssimo": por parte daqueles com quem fazem a conversa fraterna; por parte dos directores dos centros; e ainda pela prática preversa de transmissão e manipulação dos dados recolhidos nessa orientação espiritual. Os danos causados são frequentemente muito graves ou até mesmo fatais para a saúde física e psíquica dos "orientados".

Mas esta metodologia adoptada pela Obra tem também consequências em relação aos membros supranumerários e às demais pessoas que se aproximam da instituição. Salientam-se, como especialmente perigosos, os "conselhos" que podem constituir intromissões perturbadoras na vida sentimental, na vida conjugal e na vida familiar das pessoas "atendidas".

Mas, em geral, são inúmeros os riscos criados. Mais uma vez, procurarei exemplificar: Como bem se sabe, faz parte integrante do "espírito da Obra", tanto o cuidado com as coisas pequenas, como a preocupação pelo aproveitamento do tempo e, ainda, a atenção à ordem material (e não só material). Quantos círculos e palestras não ouvimos acerca destes três temas… Mas será que algum responsável da O. se terá preocupado com o facto de estas ideias gerais não poderem ser aplicadas de forma sistemática a todas as pessoas?! Designadamente, tratando-se de pessoas "perfeccionistas" que, pelo seu próprio carácter, já têm tendência para exagerar a preocupação com a ordem, com o cumprimento dos pormenores, etc?! Como não condenar o facto de se desconhecer que esse tipo de orientação tende a criar pessoas com "obsessões", por exemplo, com a limpeza, a arrumação dos objectos, o cumprimento milimétrico de todas as funções, etc?! Ao ponto de se tornarem seres incompatíveis com uma saudável vida familiar, profissional e social?!

Quer dizer que critérios abstractamente positivos, nesta como em muitas outras matérias, não podem de forma alguma ser aplicados a todas as pessoas da mesma forma. E não basta dizer que a conversa fraterna, sendo pessoal, pretende precisamente individualizar esses critérios. Isso só é verdade até certo ponto, porque – regra geral – a pessoa que orienta nunca chega a abdicar de impor os ditos critérios do "espírito da Obra." Quando, em muitos casos, teria pura e simplesmente de os abandonar. Na situação referida diria à pessoa dirigida: O critério do "cuidado com as coisas pequenas" não é para ti! Quando chegares a casa (que pode ser um centro da Obra.) não deves preocupar-te com ninharias como pendurar o casaco ou guardar a carteira! Quando terminares o trabalho não tens de verificar exaustivamente se todos os livros, folhas, objectos de escritório estão no seu lugar! De vez em quando deves romper com a rotina dos teus afazeres e ires passear livremente pela cidade onde vives, fazendo algo que te dê gosto como entrar numa livraria, ver as crianças a brincar no jardim, tomar um refresco sentada numa esplanada… Se há pessoas que dependem de ti, telefonas-lhes simplesmente a avisar que nesse dia vais chegar mais tarde…

O que deveria ser a "conversa fraterna"

Pela minha própria experiência, reconheço que a disponibilidade de uma pessoa leiga para nos atender em "conversa fraterna" pode constituir uma ajuda significativa. Com efeito, no mundo actual faz muita falta haver quem nos saiba escutar e nos possa dar um bom conselho…

Mas, para que se evitassem os graves vícios que o sistema estabelecido na Obra encerra, essa "orientação espiritual" teria de ser completamente diferente daquilo que efectivamente é:

  • Antes de mais porque não deveria ser imposta, mas procurada por iniciativa de cada um que, em cada momento, ajuizaria da vantagem ou não dessa ajuda; em certos períodos procurá-la-ia, noutros não o faria;
  • Em consequência, caberia a cada um a escolha da pessoa que atenderia a sua "conversa" (eventualmente dentro de algum parâmetro, como o de escolher um numerário/a que habite na mesma cidade);
  • E, ponto mais importante, o conteúdo da conversa seria basicamente definido por quem a procura e seria usado apenas o estilo de aconselhamento aberto à liberdade de decisão do aconselhado e nunca o estilo impositivo do chamado "conselho obrigatório" (ver Antonio Esquivias, Dirección espiritual", nº 1) que não passa de uma contradição intrínseca!

Claro que se se chegasse a realizar esta mudança, ter-se-ia "destruído" aquilo que a O. considera ser o seu "mais importante meio de formação"! Mas teria nascido algo que verdadeiramente se poderia designar como "conversa" e, acima de tudo, apelidar de "conversa fraterna"!



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