Fontes da fórmula tripla e do “trabalhar bem”

From Opus Dei info

Por Xuxu, 24.09.2018


Nos meus artigos estou abordando a relação entre Escrivá e o Concílio Vaticano II. Eu já examinei duas expressões, a "unidade de vida" e o "centro e a raiz", que Portillo usou para tentar associar Escrivá com o Concílio, e apresentei algumas fragilidades dessa tentativa de Portillo.

Agora passarei a tratar mais diretamente de Escrivá. Para isso é necessário entrar no tema da santificação do trabalho, devido ao destaque que Escrivá deu a ela no posconcílio ("es sobre todo a partir de los años sesenta cuando este tema de la santificación del trabajo empieza a ser presentado como central en la espiritualidad y la ascética del Opus Dei", Joan Estruch, Santos y Pillos 14.3.1 n. 1, p. 327 ler em Opuslibros).

Por isso estou compondo uma breve história da santificação do trabalho. Nesta primeira parte, eu apresento fontes que contextualizam e explicam duas das doutrinas de santificação do trabalho que se encontram nos livros de Escrivá (abaixo se verá que historicamente essas duas doutrinas são antagônicas). Uma é a fórmula tripla "santificar el trabajo, santificarse en el trabajo y santificar a los demás con el trabajo", que representa uma abordagem penitencial (seção n. 2 abaixo). E a outra é o trabalhar com perfeição de Conversaciones n. 10, que retomou a pregação jesuíta do "hacer bien las obras" (seção n. 3). A Opus Dei também indica essa segunda doutrina com o mote "trabajar bien", como se pode ver no livro La santificación del trabajo de José Luis Illanes ler em opusdei.org.

Nos pontos onde eu substituí algum texto por uma tradução minha, o texto original pode ser lido através dos links fornecidos.

1. O contexto da santificação do trabalho no século XVII

O livro Vida cotidiana y santidad, de Burkhart e López, publicado pela Rialp em 2010, diz que "La santificación del trabajo es un tema reciente en la Teología y particularmente en la Teología espiritual" (t. 3 p. 136). E para apoiar essa afirmação, diz que o termo Travail entrou no Dictionnaire de Théologie Catholique apenas em 1950. Burkhart e López dão apenas dois escritos - ambos do século XX - que mencionaram a santificação do trabalho antes de Escrivá[1].

Entretanto no século XVII a expressão "santificar o trabalho"[2] já estava em uso. A menção mais antiga que encontrei em google books é do teólogo luterano Johann Arndt (1555-1621). Nas suas Postillas, cuja primeira edição foi -segundo a Wikipedia- em 1620, ele diz que "qualquer pessoa pode santificar seu trabalho através da palavra de Deus e da oração" ler em Google Books na edição de 1675. E a menção mais antiga que encontrei num autor católico é do doutor Morange da Sorbonne, nas recomendações que fez ao aprovar em 31 de março de 1668 os regulamentos da Confraria dos comerciantes de Lyon ler em Google Books.

No século XVII a emergência do mundo secular não era mais novidade. As ordens terceiras já tinham história (elas surgiram no século XIII), e o capitalismo também tinha (ele surgiu no século XIV). Mas a vida secular e sua relação com a religião continuavam evoluindo dentro da sociedade[3]. O exame dos livros da época sugere que no século XVII houve o surgimento ou um desenvolvimento de ascéticas do trabalho, como o "hacer bien las obras" (ver n. 3 abaixo), a ascética calvinista[4], a santificação do trabalho, e o dever santo[5]. Isso parece ter sido um modo da religião adaptar-se as novas circunstâncias socioeconômicas do capitalismo, que determinavam mudanças na realidade do trabalho. Para ilustrar essas mudanças, eu copiei dois casos do historiador francês Roland Mousnier (Wikipedia). Um caso, que dou em nota, é o do recrutamento de trabalho[6]. E o outro é o das grandes fábricas. Mousnier explica este segundo caso dentro do contexto da crise do século XVII (cf. Wikipedia).

"O rei agrava a separação entre patrões e operários, sacrificando materialmente êstes últimos no interêsse da produtividade e dos baixos preços de custo da produção. Os operários são os soldados de um exército industrial cuja missão é assegurar a grandeza e o poderio do Estado. Instáveis, nômades, ociosos, é preciso habituá-los a um trabalho seguido, a um ritmo mais rápido e mais contínuo, a uma melhor qualidade. São submetidos, pois, a uma disciplina de ferro, segundo um ideal monástico.

"A religião, que exige o cumprimento perfeito do dever para com o Estado, vem em auxílio da produção. Nas fábricas centrais das emprêsas privilegiadas, os asilos gerais, os operários ouvem missa todos os dias, o trabalho é iniciado com um sinal-da-cruz e uma prece. A confissão e a comunhão são obrigatórias nas grandes festas do ano. A refeição é acompanhada de leituras piedosas. Na oficina, a tagarelice é interdita, mas os operários podem entoar cânticos a meia voz.

"O diretor dispõe de todo o poder em seu estabelecimento. Os operários trabalham sob a sua vigilância e a dos contramestres. Ganham por peça, o que dobra o rendimento. Estão sujeitos a multas, ao chicote, (...) por atrasos, vagabundagem (...) por tudo aquilo que, podendo constituir uma causa direta ou indireta de queda do rendimento e de elevação das despesas, seja capaz de provocar um pedido de aumento de salários." História Geral das Civilizações, Roland Mousnier, Os Séculos XVI e XVII, t. 1, 1973, p. 285-286 (a edição original francesa é de 1954). Este texto encontra-se dentro de um capítulo cujo título é "A luta contra a crise".

Essa preocupação com custos, qualidade e volume não é diferente do que se vê no mundo do trabalho atual. Isso sugere que as asceses do trabalho foram instrumentais, durante a evolução do capitalismo, para transformar a realidade do trabalho segundo as tensões próprias do capitalismo. Tensões que atualmente permanecem sendo essas mesmas que Mousnier descreve, mesmo que o modo de lidar com elas tenha sofrido ajustes. Por exemplo para conter o aumento do custo de mão de obra, hoje movem-se as fábricas para regiões onde os salários sejam menores.

2. A santificação do trabalho e a penitência

Um modo de fazer teologia do trabalho, ou de enxertar o trabalho na religião, é considerar o trabalho como prática de penitência. Ou seja, valorizar o estresse do trabalho como um bem que assemelha o trabalhador a Cristo. Vários autores que tomam essa via penitencial propõem três meios ascéticos para santificar o trabalho. E fazem isso de um modo que sugere uma correspondência com a tríade oração-jejum-esmola do sermão da montanha, que é pregada na quaresma[7]. Para uma rápida visualização, eu compus um quadro com os detalhes.

oração (fim último)

esmola (espírito de serviço)

jejum (dever e fadiga)

meios de Jean Soanen c. 1690

Primeiro meio, trabalhar para Deus (cf. "santifica-se o próprio trabalho fazendo-o para Deus", p. 191, ler em google books). Segundo meio, tornar o trabalho útil ao próximo (cf. "servir seus concidadãos (...) de modo a não fazê-los perder o gosto pelas coisas celestes", p. 198). Terceiro meio, não perder de vista o momento derradeiro (cf. "que consolação a de poder dizer ao morrer, trabalhei (...) apenas para cumprir os deveres do meu estado", p. 202).

avisos de Simó Salamó e Melchor Gelabert c. 1750

I. Antes de comenzar el trabajo, haced la señal de la Cruz, y decid: Dios mio, os ofrezco este trabajo (...) ler em google books. III. Acabado el trabajo decid: (...) perdonadme (...) en union de las intenciones y méritos de vuestro Hijo Jesus mi Salvador.[8] II. Mientras que dura el trabajo (...) Dadme la paciencia que necesito para sufrir las penas (...).

fórmula do Catecismo de Reims 1877

(1) Santifica-se o próprio trabalho orientando-o a Deus ler em google books (3) com submissão e espírito de penitência.(8) (2) e suportando as fadigas

fórmula tripla de Escrivá c. 1960

Santificar el trabajo (cf. Camino n. 359 "Pon un motivo sobrenatural (...) y habrás santificado el trabajo"). Santificar a los demás con el trabajo.(8) Santificarse en el trabajo (cf. Camino n. 815 "¿Quieres de verdad ser santo? - Cumple el pequeño deber de cada momento").

Dentre os autores do quadro, Jean Soanen (1647-1740)[9] é o que permite um exame mais detalhado (para os outros, veja[10]). Soanen dedica toda a primeira parte de seu sermão sobre o trabalho para discorrer sobre a penitência. Logo no início (p. 171) ele destaca que o trabalho foi imposto a Adão que, por causa do pecado, comerá o pão com o suor do rosto (cf. Gn 3,17-19). Essa lei não conhece exceção (p. 173). Todos devem orar sem interrupção (p. 180). Na segunda parte ele ensina 3 meios para santificar o trabalho [11]. Soanen não diz que o trabalho seja penitência, mas sim que se deve "trabalhar em espírito de penitência" (p. 181, p. 205). Igualmente ele não afirma que os três meios que ensinou sejam a oração, o jejum e a esmola, mas uma correspondência pode ser argumentada do seguinte modo.

  • O primeiro meio (p. 190-197) corresponde a oração porque orienta a tomar Deus por princípio e fim do trabalho (cf. "leur derniere fin" p. 190), a trabalhar na presença de Deus (cf. "nous rapelle sa presence" p. 191), a fazer o sinal da cruz como prelúdio do trabalho (p. 193), a não trabalhar como quem desconhece o fim da sua ação (cf. "comme les animaux" p. 193), e a não procurar no trabalho apenas a própria vontade (cf. "intégralité de toutes les parties" p. 196).
  • O segundo meio (p. 197-200) corresponde a esmola, porque trata-se de tornar o trabalho útil ao próximo (cf. "profitable au prochain" p. 197). Na explicação, entretanto, Soanen limitou-se a insistir na necessidade de se abster dos trabalhos imorais (p. 197) porque eles estimulam a sensualidade (p. 198).
  • O terceiro meio (p. 200-203) corresponde ao jejum porque nele Soanen prega contra a vaidade e a cobiça (cf. "pour la vanité" p. 201), contra a sedução dos milagres da arte e da indústria (p. 202), e orienta a procurar apenas o cumprimento do dever (cf. "les devoirs de mon état" p. 202).

A fim de poder dirigir-se a todos (artesão, monarca, estudante, trabalhador braçal, sacerdote, p. 176-178), Soanen evita os conteúdos específicos de cada estado ou profissão. "Seria prolixo demais mostrar aqui quais são as obrigações de cada estado; eu suponho que vocês as conheçam, e que os pecados sejam mais por malícia do que por ignorância" ler em google books.

Uma catequese genérica que abstraia os aspectos específicos de cada estado ou profissão não era novidade[12]. Entretanto na pedagogia mais antiga da imitação das virtudes do padroeiro, a religião também estava presente em cada profissão através de ascéticas mais específicas, como se pode ver em[13]. Por isso a santificação do trabalho pode ter representado um passo para delimitar a religião apenas aos aspectos genéricos, dentro de um processo que se desenvolveu até atingir a situação atual, onde a religião não penetra mais na técnica profissional. Essa delimitação pode ter sido exigência da racionalização do trabalho, de modo semelhante ao ocorre hoje quando as fusões corporativas eliminam duplicidades de funções. Assim possivelmente se eliminaram as liturgias e doutrinas que eram específicas para uma profissão apenas, a fim de reduzir os custos da ação social promovida pela religião.

Isso reforça a ideia, já presente na seção anterior, de que a santificação do trabalho, embora com uma formulação teológica própria, historicamente desenvolveu-se em parceria com a política econômica da nação[14]. Daí a proximidade que existiu entre Soanen e o rei Luis XIV (o título da primeira edição dos sermões de Soanen é "Sermões sobre diversos temas pregados diante do Rei").

3. A pregação jesuíta do "hacer bien las obras"

A penitência não é a única via para uma teologia do trabalho. Francis Fiorenza (Wikipedia) explica num artigo de 1980 a existência de duas teologias do trabalho no catolicismo dos séculos XVII e XVIII. Ele se apoia para isso no antagonismo entre jesuítas e jansenistas. Os jansenistas valorizaram os aspectos negativos do trabalho. Os jesuítas valorizaram os aspectos positivos.

"A posição dos jesuítas, exemplificada nos sermões de Louis Bourdaloue, proporcionou outro elemento. Deu à classe média uma consciência do seu papel específico na sociedade. Enquanto os jansenistas acentuavam a autonomia do indivíduo em face dos valores gerais da sociedade, os jesuítas puseram em correlação virtude e ordem social. Deus quis as vocações específicas e as diferentes classes. Os indivíduos deviam ser educados para executarem seus ofícios específicos na vida. (...)

"A teologia barroca e os sermões populares falavam da obrigação cristã de trabalhar. Jesus trabalhou. Ele é o modelo dos cristãos. Contudo, as razões e motivos para trabalhar são importantes para a concepção do trabalho. A literatura jansenista exaltou justamente aqueles aspectos do trabalho que poderíamos considerar suas qualidades negativas. Elogiou-se o trabalho precisamente por ser difícil, fatigoso, monótono, necessário e árduo. O trabalho desmascara a vaidade do mundo. Enfraquece o desejo do homem pelo prazer. Visto no contexto do plano divino, possui o trabalho um sentido positivo enquanto serve como penitência pelos pecados. (...)

"Esta concepção religiosa do trabalho forma o pano de fundo para o aparecimento duma nova compreensão dentro da classe média. A concepção burguesa ultrapassa esta concepção religiosa do trabalho como disciplina penitencial e chega a uma concepção do trabalho qual meio de sucesso e tarefa construtiva positiva." Francis Fiorenza, Crenças Religiosas e Práxis, in Gregory Baum, Teologia do Trabalho, 1980, p. 102 (esse livro é tradução de Concilium n. 151).

Fazendo buscas em google books, eu não encontrei um jesuíta que mencionasse a santificação do trabalho antes da supressão da Companhia de Jesus, ocorrida em 1773[15] (Soanen, de quem falei acima, era pessoalmente indisposto contra os jesuítas, veja por exemplo este episódio em Google Books). Assim, é possível que os jesuítas tenham deliberadamente evitado falar em "santificar o trabalho". Ao invés disso falaram em "hacer bien las obras" (ou "bene omnia fecit"), mote que sintetizava a sua pregação. Seguem três exemplos.

Alonso Rodriguez (1526-1616) "el hazer las cosas bién hechas, y con perfeccion: porque cosa cierta es, que no solo todos los pecados (como diximos arriba) siño todas quantas faltas, è imperfecciones hazemos en el camino dela virtud, son por falta de mortificacion: porque todas son, ò por huir, y no padecer algun trabajo que sentimos en hazer lo bueno, y lo mejor, o por no abstenermos de algun gusto" ler em google books.

Louis Bourdaloue (1632—1704) "nó basta hacer las cosas que son de nuestro estado, de nuestra vocacion y de nuestro empleo: es necesario hacerlas bien, de manera que se pueda decir de nosotros con proporcion, lo que se decia del Hijo de Dios: Hizo bien todas las cosas (Mc 7,37)" ler em Google Books.

Jean Croiset (1656-1738) "has cumplido con todas tus obligaciones, cuando has cumplido perfectamente con las de tu estado: Bene omnia fecit: hizo bien todas las cosas. Este es el elogio que hacían de Jesucristo" ler em google books.

A Companhia de Jesus nasceu no século XVI quando eclodiam as disputas entre protestantes e católicos, e um dos pontos focais disso foi a questão da salvação pela fé ou pelas obras. Por isso Inácio de Loyola nos Exercícios Espirituais deu indicações para o tema das obras. Essas indicações não incluem a doutrina do "hacer bien las obras", entretanto alguns jesuítas tentaram atribuí-la diretamente a Inácio de Loyola. Assim por exemplo Virgilio Nolarci ler em Google Books.

Uma diferença entre a santificação do trabalho e o "hacer bien las obras", que deve ter sido importante para Escrivá no posconcilio[16], está no fato de que valorizar a perfeição do trabalho significa voltar-se para o bem que está na criatura. Tomás de Aquino repete que a verdade está no entendimento, mas o bem está nas próprias coisas (cf. Suma teológica I,16,1 ler em wikisource). Esse voltar-se para a criatura confere ao "hacer bien las obras" uma intensidade secular que falta na santificação do trabalho, que é mais voltada ao fim último. A contrapartida entretanto é um aumento do risco de supervalorizar o aspecto objetivo do trabalho.




Notas

  1. Burkhart e López incluem trechos de um discurso de Pio XI, de 31 de janeiro de 1927 para a Ação Católica que menciona a santificação do trabalho. Eu não encontrei esse discurso no site vatican.va. Alguns trechos podem ser lidos em gloria.tv. Nos seus discursos, Pio XI falava de improviso, e geralmente não revisava as notas que eram tomadas, e que por isso eram publicadas sob responsabilidade da pessoa que anotou (cf. Carlo Puricelli, Le radici brianzole di Pio XI, p. 24 ler em persee.fr). É raro um papa mencionar a santificação do trabalho. João Paulo II fez isso num discurso em 1978 ler em vatican.va, e Francisco na Laudato sí n. 98 ler em vatican.va. Burkhart e López acrescentam ainda um texto de um manual da JOC que afirma que o trabalho unido ao sacrifício de Cristo é oração, e associam a esse texto o nome de Ioseph Cardijn, embora observando que Cardijn não consta como autor do manual.
  2. No século XVII os livros usavam a expressão "santificar o trabalho". Eu só encontrei a expressão "santificação do trabalho" a partir do século XIX. Pastoralmente, a expressão "santificar o trabalho" pode ter tomado como modelo o mandamento "santificar o domingo", a fim de reaproveitar um mesmo modelo pedagógico, baseado em obrigações e regras práticas. Isso pode ser percebido em vários livros. Por exemplo as Instruções familiares de Charles-Henri Janson (1734-1817) ler em google books ensinam a santificar o trabalho (p. 423), o estudo (p. 426), o comércio (p. 430), a refeição (p. 437), a recreação (p. 439), as visitas (p. 443), as conversações (p. 445), embora sem usar explicitamente o verbo santificar em todos esses casos. Os autores usavam também a expressão "santificar o próprio trabalho". Escrivá usou-a algumas vezes, por exemplo Conversaciones n. 35.
  3. O espírito secular se manifestou de muitos modos. Nos séculos XVI e XVII a música secular teve uma significativa evolução, em particular através de Claudio Monteverdi (1567-1643), que foi o principal criador da ópera. A Enciclopédia Britânica diz que Monteverdi trabalhou muito para trazer um espírito secular moderno para dentro da música sacra ler em brittanica.com.
  4. Alguns autores dizem que João Calvino (1509-1564) criou a santificação do trabalho, mas eu não encontrei na internet uma explicação disso acompanhada de textos de Calvino, e nem de como Calvino teria entendido a santificação do trabalho. No ensaio sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo, Max Weber contrasta as dogmáticas protestantes, e defende que a ascética calvinista alavancou a atitude que ele chama de "espírito do capitalismo" (cf. texto seguinte de archive.org). Max Weber não identifica essa ascética através de um nome. Joan Estruch no livro Santos y pillos refere-se a essa ascética calvinista através do termo "Bewährung" ou "confirmación", e que no inglês foi traduzido por "proof", na frase "the surest and most evident proof of rebirth and genuine faith" ler em archive.org (o original alemão pode ser confirmado em univie.ac.at). Estruch dá o caráter dessa ascética ao mencionar «el elemento que Weber habı́a considerado “especifico” del calvinismo: a saber, el carácter necesariamente “constante y metódico” del trabajo» (Santos y pillos 14.3.1 n. 2 p. 328 ler em Opuslibros, cf. texto anterior de archive.org). Estruch opina que esse mesmo caráter existe também na Opus Dei. Dámaso oferece um outro ponto de vista ler em Opuslibros.
  5. Nas buscas no google books, a expressão "saint devoir" surge na segunda metade do século XVII. Assim como na santificação do trabalho, percebe-se no dever santo a mesma perda da face humana. O padroeiro é trocado por um conceito abstrato. Mas o dever santo deu um passo que a santificação do trabalho não deu. Porque a santificação do trabalho teve escrúpulo de falar em "trabalho santo". Isso sugere que o dever santo teve um caráter mais popular. De fato, o dever santo tem associação com o movimento operário dos Compagnons du tour de France, também conhecidos como Compagnons du Devoir, ou Compagnonnage. As informações históricas são escassas. O movimento ainda existe ler artigo recente em bbc.com. Enquanto movimento operário, teve filiação de membros de diversos credos. De modo independente da Compagnonnage, a relação entre dever e santidade pode ser encontrada em muitos autores, por exemplo L. Lopez em edição de 1867 "Nosotros trabajamos realmente en nuestra santificacion cuando llenamos los deberes de nuestro estado y cuando nos hacemos capaces de cumplirlos" ler em Google Books.
  6. Dentro de um capítulo cujo título é "As novas estruturas econômicas", Mousnier explica mudanças ocorridas no mundo do trabalho. "O mercador encontrava (...) fregueses ávidos de elevar o seu nível de vida e dispostos a comprar produtos de boa aparência e baratos, embora não fossem muito bons". A necessidade de aumento da produção para atendimento dessa demanda exigiu novos modos de se exercer o trabalho, porque as corporações de ofício artesanais não atingiam o volume de produção que o capitalista necessitava. Daí "Os mercadores resolveram, portanto, partir para os burgos, para o campo, levando matérias-primas, ferramentas, e voltando mais tarde para buscar o produto fabricado, contra pagamento de salários. Encarregavam-se, também, de vendê-los. Introduziam por tôda a parte novas ferramentas, que as corporações recusavam vender, como o pisão (...) Esta máquina diminuía a qualidade mas dobrava a produção (...) Desta forma, os trabalhadores, que já não eram senhores dos meios de produção, transformaram-se de artesãos em operários." Roland Mousnier, obra citada, p. 110.
  7. "La Iglesia ha visto siempre «en la tríada tradicional oración-ayuno-caridad la forma fundamental para cumplir con el precepto divino de la penitencia»", José María Iraburu ler artigo em infocatolica. Embora sem usar a expressão "santificação do trabalho", Paulo VI recomendou a via do trabalho como penitência. Ou seja, ao invés de praticar uma mortificação desvinculada de suas atividades, viver as próprias dificuldades do trabalho. "(la Iglesia) Ante todo insiste en que se ejercite la virtud de la penitencia con la fidelidad perseverante a los deberes del propio estado, con la aceptación de las dificultades procedentes del trabajo propio (...), Constitución Apostólica Paenitemini, 1966 ler em vatican.va. Entretanto Paulo VI também ensinou outro motivo para se trabalhar, no discurso em Nazaré de 5 de janeiro de 1964 "Gran motivo de obrar en el hombre es la obligación (...) para Cristo, que el Padre por amor ha dado al mundo, es la Ley del Amor" ler em vatican.va. Dezenove dias depois desse discurso, Paulo VI recebeu Escrivá, e tirou com ele uma foto que a Opus Dei editou ver em Opuslibros artigo de Stoner.
  8. em todos os autores do quadro, a explicação da coluna da esmola ou serviço é a mais difícil. Para Soanen, eu já observei no texto acima que a explicação do sermão foi redutiva. No caso de Salamó e Gelabert, a união de méritos com o Salvador pressupõe a orientação ao próximo do espírito sacerdotal. E no caso do catecismo de Reims, a submissão subentende atender uma outra pessoa, e não a si mesmo. Escrivá relaciona o serviço, por exemplo, com aquisição de competência (Es Cristo que pasa n. 50), com ascética (Camino n. 344), com a edificação da cidade terrena (Conversaciones n. 70), com apostolado (Conversaciones n. 90). O livro Vida cotidiana y santidad, de Burkhart e López, identifica "santificar a los demás con el trabajo" com apostolado (t. 3 p. 207).
  9. Jean Soanen foi um pregador do Oratório. Após sua morte foram publicadas suas cartas em 1750 e seus sermões em 1767 (os sermões foram republicados em 1830 ler em google books e em 1854 por Migne ler em google books). O prefácio da edição dos sermões diz que foram pregados numa época em que Soanen tinha a estima do rei Luis XIV, que morreu em 1715 (t. 1 p. vi ler em google books). Alguns de seus sermões trazem a indicação de que foram pronunciados diante do rei. A maioria dos sermões, inclusive o sermão sobre o trabalho, não indica data. Nos poucos que indicam, a data varia de 1683 até 1695. Soanen foi ordenado bispo em 1696. Mas foi exilado em 1727, após uma controvérsia onde ele se posicionou contra a bula Unigenitus de 1713, que condenou doutrinas jansenistas. De todos os seus escritos, aparentemente apenas uma carta e o testamento foram colocados no Index. O link anterior da edição de 1854 apresenta uma anedota segundo a qual Soanen era considerado um rigorista, mas conclui dizendo que ele era na verdade um orador simples, que prescinde dos ornamentos desnecessários. A wikipedia em inglês diz que Soanen era jansenista convicto. A wikipedia em francês diz que Soanen era simpatizante do jansenismo.
  10. Sobre os outros autores do quadro, a edição catalã de 1755 do livro Regla de Vida, de Simó Salamó (Wikipedia) e Melchor Gelabert pode ser lida em google books. Esse livro foi traduzido para o espanhol, e teve várias edições, que adentraram no século XIX. Após uma breve doutrina em torno da penitência, ele dá três avisos para santificar o trabalho corporal de um modo prático, e pronto para ser vivido. Esses avisos eu sumarizei no quadro. O catecismo de Reims eu tratarei depois, por causa do contexto do socialismo. Escrivá eu também tratarei depois, entretanto a leitura da fórmula tripla como penitência vem do fato de Escrivá ter imitado o que outros autores escreveram ao longo de pelo menos dois séculos, como se percebe no quadro (Escrivá não ofereceu uma explicação textual da fórmula tripla). O livro Vida cotidiana y santidad, de Burkhart e López, confirma a intenção de Escrivá abordar a vida no mundo através da penitência, mas ao mesmo tempo tenta afastar a chave de leitura oração-jejum-esmola «(san Josemaría) desea inculcar un "espíritu de penitencia" que esté presente en la entera conducta del cristiano. En vez de hablar de "ayuno, oración, limosna" prefiere poner ejemplos de que cualquier acto virtuoso puede tener carácter penitencial.» (t. 3, 2010, ISBN 8432142395, p. 381). A fórmula tripla aparece ao menos em Conversaciones n. 10, 18, 24, 55, 70, Es Cristo que pasa n. 45, 122 (nas obras póstumas, a homilia Sacerdote para la eternidad).
  11. Há uma semelhança de planos entre o sermão de Soanen sobre o trabalho e o ensaio de Max Weber sobre a ética protestante e o espírito do capitalismo. Porque ambos inicialmente respondem a pergunta dogmática "por que trabalhar?". Soanen responde com a condenação a comer o pão com o suor do rosto de Gn 3,17-19. Max Weber responde contrastando a dogmática luterana, que rejeita a salvação pelas obras, e a calvinista, que também a rejeita, mas de certo modo recai nela. Em seguida, ambos passam para a questão ascética "como trabalhar?". Soanen responde com a santificação do trabalho, e Max Weber com uma exposição longa que destaca a ascética calvinista. E ambos fazem isso atentos ao contexto socioeconômico, isto é, de um modo compatível com a racionalização capitalista. As abordagens entretanto são distintas. A de Soanen é pastoral e teológica, a de Max Weber é sociológica.
  12. No Guia de Pecadores, Luis de Granada (1504-1588) também evitou os aspectos específicos ler em google books. Assim como Soanen, Escrivá também apresenta uma doutrina de santificação do trabalho que é apenas genérica, mas ao mesmo tempo exige os elementos específicos ("No creo en la rectitud de intención de quien no se esfuerza en lograr la competencia necesaria, con el fin de cumplir debidamente las tareas que tiene encomendadas", Es Cristo que Pasa n. 50). Entretanto em Escrivá eu não encontrei uma afirmação clara como a de Soanen ou a de Granada, dizendo que não instruiu nos deveres específicos. Ao invés de entrar nesses detalhes, a Opus Dei prefere aquela imagem sugestiva do "un solo puchero" de Amigos de Dios n. 294 ler em escrivaobras.org. Assim a nota "Ao Leitor", acrescentada postumamente no livro Ascetica Meditata de Salvatore Canals. «Mons. Josemaría Escrivá, Fundador do Opus Dei, explicava que, no exercício do seu ministério, não tinha senão "uma só panela" de comida, uma mesma doutrina com validade universal». É claro que, na prática, essa "validade universal" se ressente das dificuldades de comunicação que advém da falta de conteúdos específicos comuns. Gervasio aborda a orientação de pessoas na Opus Dei sem o apoio de uma experiência profissional comum ler em Opuslibros.
  13. o regulamento de 1688 da Confraria dos comerciantes de Lyon é um caso de espiritualidade de trabalho não genérica. Essa Confraria foi estabelecida pelos padres Feuillants, que eram cistercienses, e desapareceram na Revolução Francesa. Ela tinha portanto uma herança cultural dos monges (Jean Soanen pregou aos Feuillants um sermão sobre o patriotismo em 1683 ler em google books). O padroeiro santo Homobono de Cremona é representado segurando uma bolsa de dinheiro ver em wikimedia. Suas virtudes coincidem com as qualidades necessárias aos negociante da época, e constituem por isso uma espécie de código de qualidade comercial. Não exceder o preço justo p. 25, não permitir injúrias na loja p. 25, pagar todas as dívidas p. 25, afabilidade e modéstia nas palavras p. 25, não emprestar com usura p. 28 (eu indiquei as páginas do pdf baixado do google books, e não a numeração impressa nos vários folhetos independentes que compõem o volume). O regulamento também inclui oito meditações (p. 46-101) sobre o modo de se santificar no comércio, sobre o nome, a condição, e a vida matrimonial de santo Homobono, sobre o amor do próximo, sobre o amor de santo Homobono pelo próximo, sua morte, e seus milagres. Eles destacam da Bíblia textos que falam de negócios como Lc 19,13 ou Mt 13,45. O regulamento também desenvolve que os meios principais de santificação são sacramentos e oração, e explica por que no caso de santo Homobono a oração tinha uma importância peculiar p. 126. As aprovações das autoridades eclesiásticas e dos doutores podem ser vistas a partir da p. 113.
  14. A política econômica na Espanha no período do Concílio e posconcílio foi desenvolvimentista. A Igreja não estava alienada disso, Paulo VI abordou o tema num discurso a empresários de Barcelona em 1964 "vuestra Patria en que con fe en sí misma y confianza en el porvenir ve lanzadas fuerzas ingentes hacia metas de desarrollo económico" ler em vatican.va. A evolução do PIB da Espanha na década de 1960, em milhões de dólares americanos, segundo o Banco Mundial. No ano de 1968, o único em que houve recessão, Escrivá publicou Conversaciones.
  15. O primeiro jesuíta que encontrei falando de santificação do trabalho, num livro publicado postumamente em 1815, foi Jean Grou (1731–1803), que viveu no exílio durante a supressão da Companhia de Jesus (ler em Google Books). Entretanto ele não usou a abordagem penitencial oração-jejum-esmola. Eu voltarei nesse assunto depois.
  16. Em Conversaciones n. 10, Escrivá diz que "Lo que he enseñado siempre -desde hace cuarenta años- es que todo trabajo humano honesto, intelectual o manual, debe ser realizado por el cristiano con la mayor perfección posible" (ler em escrivaobras.org). Essa doutrina, que os jesuítas pregavam usando o mote "hacer bien las obras", a Opus Dei chama de santificação do trabalho. Na verdade o próprio Escrivá falou em "trabajar bien" (Conversaciones n. 27), que é um nome mais adequado para a doutrina de Conversaciones n. 10. E talvez por essa doutrina ter recebido destaque na instituição, a Opus Dei publicou em 2016 um livro dando a ele o título "Trabajar bien, Trabajar por amor", deslocando a expressão "santificación del trabajo" para o subtítulo ler o ebook em opusdei.org
Personal tools