Alguns comentários ao documento “Vademecum de los Consejos locales”

From Opus Dei info

Ver Vademecum de los Consejos Locales, Roma, 1987


É importante ler com cuidado este documento interno do opus dei - Vademecum de los Consejos locales. Sua linguagem muitas vezes “caridosa” e cheia de “compreensão” deve ser interpretada à luz da prática real dos diretores da obra (fidelíssimos leitores e executores do documento). Assim, esperamos que os comentários abaixo, primeiro, possam ser uma ajuda para os membros da obra que se sentem culpados por colocarem em dúvida a sua “vocação”, e, em segundo lugar, tragam esclarecimentos às centenas de pessoas que deixaram a obra e talvez ainda se sintam culpadas pelo relacionamento frustrado que mantiveram com a instituição.

Focalizaremos alguns trechos incluídos nos pontos 4. Admisión e incorporación e 5. La perseverancia en la entrega. Selecionamos e transcrevemos trechos, indicando a(s) página(s) correspondente(s), para a seguir fazer nossos comentários.


TRECHO:

Obligaciones que se contraen con la incorporación a la Obra

El vínculo que une al Opus Dei es un compromiso de amor, como gustaba tanto decir a nuestro Padre, que obliga a sus miembros a una dedicación plena y total a los fines de la Prelatura. Los miembros de la Obra han de considerar detenidamente que contraen, siempre de cara a Dios, un compromiso firme y estable, con un contenido teológico, moral y ascético bien preciso, que tiene el vigor y la obligatoriedad de una dedicación vocacional, en el que se empeñan enteramente la honradez cristiana y la fidelidad debida a una llamada específica, recibida de Dios. Ese compromiso impulsa a los fieles de la Prelatura a luchar por ejercitar con plenitud, según el espíritu de la Obra, todas las virtudes cristianas, y entre éstas —sobrenaturalizándolas—, las virtudes humanas, con la plena exigencia que proviene de la vocación específica a la búsqueda de la santidad en medio del mundo. Esas virtudes, en la medida en que están preceptuadas por leyes divinas o eclesiásticas, obligan en la misma forma que esas leyes determinan.

Además, se adquieren unas obligaciones específicas —que precisan el modo de practicar esas virtudes y la dedicación a Dios—, que nacen del vínculo con la Prelatura. Al referirse a este punto, la Santa Sede se expresa así en su Declaratio (I, c): "... graves et qualificatas obligationes ad hoc assumentes... non vi votorum, sed vinculi contractualis iure definiti".

Se indican a continuación algunas de estas obligaciones, con el fin de que sirvan de pauta para tener siempre conciencia muy clara de que, al don excelso de la vocación a la Obra, se ha de responder con una exigencia igualmente grande, plena, que se aplica a todos los aspectos de la entrega:

—la disponibilidad, cada uno según su estado y circunstancias, para dedicarse a las tareas apostólicas de la Obra;

—el deber de obedecer con finura, sentido sobrenatural y prontitud al Padre —y a los Directores que le representan—, en todo lo referente a la vida interior y al apostolado;

—el empeño de trabajar, de convertir esa tarea profesional en instrumento de santificación y apostolado, haciendo de cada día una Misa; y de obtener también los medios para el propio sustentamiento y para sostener las labores apostólicas, cumpliendo con exactitud las normas específicas sobre el desprendimiento y el uso de los bienes terrenos;

—el celo por acercar almas a Dios, con un apostolado constante, lleno de comprensión hacia las almas y de deseo de convivir con todos los hombres; y el derecho y el deber de hacer proselitismo, para promover vocaciones a la Obra;

—el deber de fraternidad, de ayudar a los demás fieles de la Prelatura en su camino de santidad, usando todos los medios que estableció nuestro Fundador;

—el cuidado atento de las amables exigencias de la vida en familia;

—el celibato apostólico vivido por amor —los Numerarios y Agregados— y, para todos, la necesaria virtud de la santa pureza, practicada con la mayor delicadeza posible;

—el deber de cultivar la filiación divina, como fundamento de la vida espiritual de los miembros de la Obra;

—el optimismo y la alegría, tan propios del espíritu de la Obra, que nacen de la condición de hijos de Dios;

—el esfuerzo —¡maravilloso honor!— por conocer e imitar a nuestro amadísimo Fundador, como modelo querido por Dios hasta el final de los siglos; y de acudir a su intercesión en el camino de santidad y apostolado;

—el puntual empleo —como un grato derecho y deber— de los medios de formación que la Obra proporciona abundantemente. (pp. 39-42)

COMENTÁRIO:

Quando o texto diz que o membro da obra tem o dever de obedecer “con finura, sentido sobrenatural y prontitud al Padre —y a los Directores que le representan— , en todo lo referente a la vida interior y al apostolado”, alguém poderia imaginar que essa obediência se atém aos aspectos da vida espiritual e à prática livre de difundir a fé cristã. Engana-se.

De fato, para um membro da obra, tudo é englobado pelo apostolado proselitista. E pelo apostolado proselitista tal como é definido pela obra. Não se trata do apostolado dos primeiros cristãos, universal, aberto. Trata-se, prioritamente, de conseguir vocações para o opus dei. Então, se uma pessoa da obra quer aproximar um amigo ou uma amiga do centro para ajudar esse(a) amigo(a) que está com dificuldades emocionais, esse seu apostolado será “podado”, como aconteceu com aquela numerária que queria trazer uma amiga e a diretora lhe proibiu expressamente. A obra não faz o papel do samaritano. Ela quer mão-de-obra, vocações, gente que possa ajudar economicamente, e fazer um apostolado baseado na “seleção”.

Apostolado, e isso é dito em todas as palestras sobre o tema (mas só depois que a pessoa assina o cheque em branco da “vocação”) é também colocar as 24 horas do dia à disposição da obra. Concretamente, nessas 24 horas estão incluídas as horas de estudo e trabalho, que podem ser diminuídas ou extintas, conforme o caso. Um membro da obra que queira ser um intelectual (especialmente se for mulher) terá muitas dificuldades, pois suas “excessivas” horas de estudo serão interpretadas como egoísmo, soberba, “profissionalite” etc.

A frase “el cuidado atento de las amables exigencias de la vida en familia” não é suficientemente clara se não for contextualizada. Família não é a família natural (e também sobrenatural, pois foi Deus quem escolheu nossos pais para serem nossos pais...) do membro do opus dei. Família é o opus dei, e especialmente as pessoas com quem o numerário mora, por exemplo. E entre essas “amáveis exigências” são exigidas as famosas “correções fraternas”. Ou seja, é muito comum que o(a) diretor(a) peça a um(a) numerário(a) que, a sós, fale com outro(a) numerário(a) sobre algo que este(a) tenha feito de errado, e em geral são coisas ridículas. Por exemplo, o numerário não engraxou os sapatos direito. O outro o chama a sós e lhe diz: “Fulano, eu reparei que você não tem engraxado bem os seus sapatos, e isso é importante para vivermos a pobreza como nos ensinou o nosso Padre, conservando esses bens que, no fundo, não nos pertencem.” O numerário relapso então agradece a quem o corrigiu e os dois se despedem.

O artificialismo é impressionante. E isso leva a uma constante tensão. Um numerário sabe que está sendo “vigiado” por oito, dez, doze ou mais pares de olhos “caridosos”, prontos a detectar suas falhas, mais ou menos voluntárias, que vão se transformar em correções fraternas. Aliás, está muito bem visto dentro da instituição o numerário que faz constantes consultas ao diretor, por iniciativa própria, sobre possíveis erros e falhas dos seus “irmãos”. O Fundador sempre dizia que, num centro, se há muitas correções fraternas tudo vai bem.

Um último comentário a esse trecho diz respeito ao ponto em que o documento se refere ao celibato apostólico dos numerários e adscritos, que deve ser vivido com “a maior delicadeza possível”. Tal delicadeza significa, porém, tratar o sexo oposto com o máximo de distância e até com uma certa falta de educação, que pode se transformar em exemplo edificante de palestras internas.

Os numerários devem cultivar o escrúpulo de falarem o menos possível com o sexo oposto para que não se apeguem etc. Não pode haver beijos na face, nada de conversar a sós, em público ou em privado (mesmo que por motivos de estudo ou profissionais), e os mais jovens são instruídos a ser até mesmo um tanto rudes com a moça ou com o rapaz, dependendo do caso, se acharem que o outro ou a outra estão se aproximando demais. Tal comportamento esquisito se compreende pela insegurança que a instituição sente com relação à “vocação” dos numerários e incute nos próprios numerários. E estes vão se tornando pessoas esquisitas, rígidas, pois pressupõem que está todo mundo querendo destruir seu celibato. Um certo diretor, nos cursos anuais, gostava de dizer que todo numerário é um “bom partido”, e que as mulheres estavam sempre de olho nos numerários...


TRECHO:

Los fieles de la Prelatura experimentan con igual fuerza el compromiso de cultivar y defender, en todo momento, las características divinas de la Obra: su naturaleza y sus fines sobrenaturales, su unidad, los modos apostólicos queridos por el Señor, el Derecho propio —santo, perpetuo e inviolable— que nuestro queridísimo Fundador, por Voluntad divina, estableció para siempre, y la Santa Sede ha sancionado.

De acuerdo con los principios generales de la Teología Moral, estos compromisos, que se adquieren siempre voluntaria y libremente, obligan en conciencia, con una gravedad proporcional a la materia de que se trate en cada caso. Por tanto, faltar a alguno de esos deberes en materia grave —es decir, en algo que se refiere a un aspecto esencial de los compromisos, tal como lo establecen los Estatutos—, constituiría un pecado grave contra la virtud de la fidelidad, e incluso contra la estricta justicia, si se tratara de lesión de derechos de la Obra o de sus miembros; y, en su caso, se podría causar también escándalo para los demás o grave daño para el buen nombre del Opus Dei.

Al recordar todo esto, los miembros de la Obra se dispondrán a ser cada día más fieles a su compromiso de amor, y —sin escrúpulos— evitarán cualquier síntoma de aflojamiento en la lucha personal. Por eso, el examen —el diario, el semanal en los Círculos, el de los días de retiro— ha de ser exigente, sin soslayar ningún punto de la entrega. (p. 42)

COMENTÁRIO:

Evitar qualquer relaxamento em sua luta pessoal significa obedecer a tudo o que ordena a obra, não questionar nada, aceitar tudo com “espírito sobrenatural”. Mesmo que sejam coisas absurdas como dormir na rua por não ter conseguido uma assinatura de livros para a editora quadrante, vinculada à instituição, conforme o testemunho de um ex-numerário, corroborado pelo relato de outro ex-membro.

De fato, o diretor que cometeu esse erro gravíssimo não teve o menor escrúpulo em abusar do poder que lhe foi concedido por Deus (?) para massacrar o seu irmão. E o pior é que a obra não só não desaprovou este ato como premiou o diretor com novas e importantes tarefas de governo, o que comprova que esse tipo de coisa não é fruto da idiossincrasia de uma pessoa isolada mas práxis aprovada e promovida pelo opus dei como instituição. Um membro da obra pode receber uma correção fraterna porque não engraxou os sapatos direito, mas um diretor pode mandar um numerário da obra dormir na rua... e tudo bem!

O problema é que a palavra “entrega”, na terminologia interna do opus dei, extrapola quaisquer limites. Quando o documento diz “Por eso, el examen —el diario, el semanal en los Círculos, el de los días de retiro— ha de ser exigente, sin soslayar ningún punto de la entrega”, isto significa que o membro da obra deve abandonar qualquer resistência a tudo o que lhe mandarem fazer, seja o que for. Sua obediência deve ser total, porque total é a sua entrega. E obedecer aos diretores, por mais estapafúrdias que sejam as ordens. Se não obedece cegamente poderá ser acusado de causar um grave prejuízo ao opus dei, o que onera a sua consciência tremendamente.


TRECHO:

A través de los diversos medios de formación, se recuerda continuamente a los miembros de la Obra que la vida es lucha, ordinariamente en cosas pequeñas; a veces, porque el Señor lo permite, en cosas grandes; pero sólo mientras hay lucha, se mantiene la vida, y se llega a la victoria superando esos obstáculos ágilmente, realizando este ejercicio —este deporte sobrenatural— con afán de superación, pensando en el premio, como cristianos llamados a la santidad, a la plenitud de la vida de la gracia, que tendrá su perfecto cumplimiento con la visión beatífica en el Cielo. Para llegar a este término, es necesario pedir al Señor la perseverancia final, don gratuito para el que dispone también la perseverancia actual y habitual en la vida cristiana, en el lugar en que Dios ha colocado a cada uno.

La última piedra es lo interesante. En la existencia, si no se consigue poner la última piedra, la vida entera no sirve de nada. Es preciso, por tanto, luchar contra la comodidad, contra el desorden, contra el peso de las propias miserias, contra el posible mal ambiente externo, todo un conjunto de falsas excusas, que no faltarán nunca, pero que con la gracia de Dios son siempre superables.

¡Vale la pena ser fieles, vale la pena aspirar a poner la última piedra, con la ayuda del Señor! Se comienza por un trato íntimo —de amigo, de verdadero amor— con Cristo Jesús, porque sin El no se puede nada. Es preciso estar pendientes de El en el tabernáculo, mientras se trabaja, o en el momento de la distración.

Y, a la vez, servir a los demás, también siempre. La labor no termina cuando las almas comienzan a andar cristianamente: esto es mucho, pero no es todo. Importa seguir vigilantes para que los buenos sean mejores; para que los que no conocen a Cristo, le descubran; sabiendo que todos —cada uno de nosotros en primer término— estamos necesitados de la ayuda de Dios —y de su misericordia— y de la ayuda de los demás. Muy grave es abandonar la posibilidad de que surjan nuevas conversiones y nuevas llamadas de Dios a una mayor dedicación a su servicio; pero más grave sería contribuir con la indiferencia, con omisiones personales, con una falta de atención sobrenatural y humana, a que alguno pierda el camino neciamente o por ceguera.

Nada de lo que se refiera a los demás, por pequeño que sea, puede resultar indiferente. Cada uno, por tanto, ha de sentir la responsabilidad de sostenerse y de sostener a los demás, porque el verdadero amor a Dios lleva consigo un continuo servicio a todas las almas, y concretamente a las de aquellos con los que se convive. Hay obligación de no privar a los demás de la caridad de la oración, del ejemplo, de la mortificación, de la oportuna corrección, de la alegría sobrenatural y humana y de la delicadeza. Todos han de sentir siempre aquel grito del Apóstol: ¿quién enferma que yo no enferme con él?

No hay que extrañarse, sin embargo, de que, a pesar de todo, surja en alguno la tentación de volver la cara atrás —cfr. Luc. 9, 62—: porque el demonio, con la complicidad de las debilidades de cada uno, trata de derribar el edificio de la vida interior. (pp. 45-47)

COMENTÁRIO:

La última piedra es lo interesante. En la existencia, si no se consigue poner la última piedra, la vida entera no sirve de nada” — e a partir desta afirmação, consagra-se a idéia de que o membro da obra que, livremente, resolve sair da instituição, não colocou a última pedra, e, portanto, sua vida inteira não serve nem servirá para nada.

Por isso muitos membros da obra, em particular os numerários, precisam de acompanhamento psicológico depois de terem tomado a decisão de deixar a instituição. Paira eternamente sobre a sua consciência a idéia sinistra de que sua vida tornou-se inútil... porque não poderá mais vender os livros da editora quadrante, não poderá mais pedir doações para a OSUC, ACES, AFESU etc., não poderá mais cuidar dos clubinhos do opus dei, não poderá mais incutir nos amigos a idéia de que o opus dei é tão divino quanto a Igreja etc., etc. Por isso, há ex-membros que continuam sendo assinantes da editora quadrante, continuam contribuindo economicamente com a instituição, talvez para não se sentirem tão culpados por terem decidido ir cuidar da própria vida!

É que este é o conteúdo da entrega na obra: não se tem mais vida própria. Há uma canção interna, para os “dias de festa”, em que todos repetem alegremente: “Tengo el derecho de no tener ya nunca ningún derecho.

Isso é fundamental entender: os numerários, especialmente estes, se forçam a pensar que não têm mais nenhum direito dentro do opus dei. O contrato que fizeram com a prelazia (contrato em que as partes possuem direitos e deveres, contrato para Vaticano ver...) é quase um detalhe, pois espiritualmente falando, e na prática do dia-a-dia, a obra tem todos os direitos (direito ao bom nome, a ser aprovada, a ser amada...), e os membros da obra têm o direito de obedecerem, de serem fiéis, de não reclamarem, de não se queixarem etc.

E, para coroar tudo isso, se um membro da obra sente em sua consciência (lugar sagrado em que somente a pessoa e Deus têm lugar) que deve sair da obra, é tratado como traidor, como alguém que quer abandonar, não apenas uma instituição, mas tudo o que se refere a Deus e à Igreja — “No hay que extrañarse, sin embargo, de que, a pesar de todo, surja en alguno la tentación de volver la cara atrás —cfr. Luc. 9, 62—: porque el demonio, con la complicidad de las debilidades de cada uno, trata de derribar el edificio de la vida interior.

Em outras palavras, há uma extrapolação indevida. Ser da obra é ser de Deus. Deixar de ser da obra é deixar de ser de Deus. Raciocínio fanatizado que o próprio membro da obra introjeta e aceita. E por isso é freqüente que ex-membros percam a fé. Foram “formados” assim, obrigados a pensar que esta é a conseqüência natural de seu desligamento do opus dei.


TRECHO:

Con la gracia de Dios, siempre serán pocos los miembros de la Obra que abandonen su vocación, entre otros motivos, porque —además de haber comprobado previamente que reúnen condiciones, en relación, sobre todo, con una serie de virtudes humanas básicas: sinceridad, reciedumbre, espíritu de trabajo, etc.— todos piden la Admisión con un conocimiento suficiente de las exigencias de la entrega; porque son vocaciones maduras, de personas que ya han superado las posibles crisis espirituales de la adolescencia; porque reciben una formación sincera, abierta, que les ayuda a valorar, en medio de la realidad del mundo, la hondura sobrenatural de su camino; porque cada uno tiene recursos sobrados para desenvolverse social y económicamente; y sabe que lo mismo que no necesita de la Obra para vivir, él tampoco es necesario para la Obra: nadie está en el Opus Dei por conveniencia; porque ninguno se siente nunca coaccionado o forzado humanamente a seguir el camino; su entrega a Dios fue libre, y libre sigue siendo su perseverancia: todos saben que, para salir, tienen la puerta abierta. (pp. 47-48)

COMENTÁRIO:

Esse trecho é de todos o mais ambíguo, para não dizer mentiroso e enganador.

A afirmação inicial de que serão sempre poucos os membros da obra que abandonem a “vocação” é de uma arrogância extraordinária. Tanto mais que há sérias razões para pensar que o número dos que saíram e continuarão a sair da obra é muito grande. Cada membro da obra poderá fazer seus próprios cálculos. Quantos numerários você viu saírem da obra? É evidente que a obra jamais apresentará esses números. Informalmente, quando ex-membros se encontram e começam a lembrar nomes de pessoas com quem conviveram dentro da prelazia, chegam a contabilizar que para cada numerário da sua época que permaneceu na obra, cinco já saíram. Especula-se também, por exemplo, que cerca de 600 numerários abandonam a obra a cada ano, no mundo inteiro, levando-se em conta que são cerca de 20 mil os numerários entre os 84 mil membros da prelazia.

Seja como for, não são poucos os membros que saem da prelazia, incluindo-se aqui os supernumerários e adscritos.

Outra mentira: “todos piden la Admisión con un conocimiento suficiente de las exigencias de la entrega”. Ora, até onde o conhecimento é “suficiente”? E suficiente para quem?

Na realidade, um numerário só depois de ter entrado na obra, só depois de ter se comprometido em consciência a ser fiel a vida inteira ao opus dei (sob pena de colocar em risco a sua salvação eterna), só depois disso descobre que terá de usar cilício e disciplina, só depois disso descobre (no caso das mulheres) que dormirá em tábuas, só depois disso descobre que terá de consultar o secretário para comprar roupas e livros, só depois disso descobre que receberá correções “fraternas” porque não engraxou os sapatos, só depois disso descobre que terá de excluir de sua lista de “amigos” amigos seus que não queiram receber a formação da obra, só depois disso descobre que não poderá mais sair à noite, só depois disso descobre que não poderá ir ao teatro ou ao cinema, só depois disso descobre que sua vida estará toda ela pautada pela vontade dos diretores e, de repente, deverá se tornar vendedor de livros ou coisa parecida.

É totalmente normal, portanto, que, após essas contínuas descobertas decepcionantes, e após ver numerários e supernumerários sendo massacrados pela obra, muitas pessoas, mesmo maduras, com 30 anos, com 40 anos, com 50 anos de idade, entrem em crise! E muitas delas numa crise sem saída, pois podem ter dedicado a maior parte da sua vida a trabalhos internos na obra, o que lhes impediu de ter contato com a evolução do mercado de trabalho. O que pode um numerário com 45 anos de idade fazer no mundo depois de ter se enterrado na obra, “trabalhando” como diretor ou realizando tarefas internas durante mais de 10 anos, praticamente apartado da sua profissão verdadeira?

É comum também que um numerário saia da obra sem um tostão furado, pois lá dentro não tinha direito a ter conta bancária, poupança, cartão de crédito, nada. Entregava todo o seu salário à obra, e da obra sairá com a roupa do corpo. Não tem onde morar, por exemplo. Se a sua família verdadeira o acolher, ótimo. Mas... e se não for possível? Bom, este problema a obra já descartou, avisando que “cada uno tiene recursos sobrados para desenvolverse social y económicamente; y sabe que lo mismo que no necesita de la Obra para vivir, él tampoco es necesario para la Obra”. Recursos de sobra? Que o digam os próprios membros e ex-membros...

As portas da obra estão abertas para sair? Mentira. Em primeiro lugar, não estão abertas porque todo aquele que sai, sai com aquela idéia de que está traindo o próprio Deus. E sai sabendo que, se por acaso abrir os olhos e disser algo contra a obra, a obra, com toda a “caridade”, reagirá à altura. Eis um relato interessante, retirado de Interpretación por Escrivá del relato del joven rico:

Nos anos 1970, na Espanha, apareceram dois livros sobre a Obra escritos por ex-membros (um homem e uma mulher). Lembro-me que o reitor do Colegio Mayor Aralar nos reuniu e avisou que esses livros eram ataques à Obra, e que não deveríamos nem falar deles nem lê-los. E, no final, afirmou: “ela está mal da cabeça”, e “ele saiu, se casou, e...”, então, rindo-se, proferiu uma desqualificação de tipo sexual que não quero escrever. Certamente, este bom sacerdote estava repetindo o que ouvira de outros. Eu quis lhe fazer uma correção fraterna, mas não me atrevi, dada a gravidade do tema. (...) Desprestigiar uma pessoa que vai embora e critica a obra é próprio do opus dei? É claro que não se fala mal de todos os que se vão embora. Mas talvez somente daqueles que vão embora e mostram em público que discordam da obra. Recordo-me que quando eu saí do opus dei e precisava de amigos, um numerário que me conhecia há muito tempo disse à sua irmã supernumerária que eu estava com “um parafuso a menos”.


TRECHO:

De todos modos, resulta inevitable que algunos se vayan. Es una prueba más del vigor sobrenatural y de la salud de espíritu de la Obra. Como todo cuerpo sano, se resiste a asimilar lo que no le conviene, y expulsa inmediatamente lo que no asimila. Y no sufre por eso: se robustece. En concreto, no puede extrañar —lo contrario no sería normal— que durante el año y medio de prueba, algunos no sigan adelante. En la gran mayoría de los casos, no son defecciones: se trata simplemente de que los Directores —o el mismo candidato— comprenden con claridad que no está en condiciones de continuar. (p. 48)

COMENTÁRIO:

E o que dizer dos que saem da obra depois de terem feito a Fidelidade, mais de 6 anos depois de terem “apitado”? E o que dizer de tantos numerários que deixaram a obra depois de 10, 15, 20 anos ou até mais tempo de entrega? Será que os diretores não tinham percebido que essas pessoas não reuniam condições para “perseverar” por tanto tempo?

O texto deixa entrever a arrogância com que são tratados os ex-membros. Estes que saem não convinham à obra. A obra os destrata depois de os ter consumido. A prelazia usou o dinheiro, a força de trabalho, a juventude e o prestígio profissional de numerários e numerárias, de supernumerários(as) e adscritos(as). Quando essas pessoas não concordam mais com a orientação que recebem, quando não são coniventes com as injustiças que sofreram ou viram sendo praticadas, tornam-se “coisas” que podem ser expulsas.

Mais ainda: a obra não sofre nada com isso. E isso é real. E os próprios membros da obra são induzidos a ver com frieza a saída daqueles que foram seus “irmãos”. É muito comum que um membro da obra evite falar com os ex-membros. Em geral, os membros da obra mais sensíveis, e que sofrem com a saída das pessoas, acabam também entrando em crise, pois não conseguem compreender como aquelas pessoas deixaram a obra. Não conseguem compreender como a obra os esquece com tanta rapidez. É freqüente que um membro da obra mais sensível, depois de um certo tempo na instituição, faça uma lista de pessoas que viu saírem da obra, no afã de não esquecer seus nomes. Pois esses nomes são devidamente apagados da memória da instituição. Sem dó nem piedade.


TRECHO:

A los que intentan abandonar su vocación, se les debe ayudar espiritualmente, y —sin coacción ninguna— tratar de que reaccionen. Posiblemente, están cegados, obcecados, y es entonces cuando necesitan más que nunca de la serenidad de juicio del Director, que les enseñará a valorar los problemas con sentido sobrenatural; y procurará emplear también, si es conveniente, medios humanos nobles, para evitar las circunstancias que sean, o puedan ser, la ocasión o el origen de esas tentaciones contra la vocación.

Cuando se llega a una crisis así, hay apasionamiento en quien la sufre, y por lo tanto, se han de poner —con un derroche de caridad y de paciencia— todos los medios para atraerlo al buen camino. Es necesario aconsejarle que lo piense bien y durante más tiempo; que espere y medite despacio ese paso, haciéndole ver la Bondad de Dios, para que no se precipite y tome decisiones de las que podría lamentarse siempre; se le mostrará la ayuda que la fidelidad supone para su salvación y el daño que la infidelidad puede hacer a los demás. Se procurará hacerle comprender que otra actitud, al cabo del tiempo, le llenaría de pena y le avergonzaría delante de Dios, de su conciencia y de los hombres; que negarse a recibir la ayuda sobrenatural que se le ofrece, precisamente en ese momento de ceguera, es tentar a Dios Nuestro Señor, exponiéndose a perder la felicidad terrena —el gaudium cum pace— y tal vez la eterna. Como, de ordinario, suele faltar la sinceridad a quien padece esta crisis, hay que tratarle con mucho cariño —lleno de sentido sobrenatural—, para que acabe abriendo completamente el alma, y sea humilde y dócil. Es el camino seguro para perseverar, con la gracia de Dios, que no le faltará.

En concreto, convendrá enterarse con prudencia de qué clase de amistades cultiva; si tiene intimidad con alguna persona; si se aconseja con algún eclesiástico (ajeno a la Obra), en lugar de hacerlo con sus hermanos; qué correspondencia envía y recibe, pues quizá escriba a parientes, a amigos o a otras personas que le hagan muy poco bien; qué libros lee. (pp.53-54)

COMENTÁRIO:

Quem lê essas passagens sem ter sido da obra ou sem ter passado o que os ex-membros passaram pode chegar a acreditar que a obra é de fato uma família cheia de carinho... No entanto, a leitura atenta revela alguns matizes.

Na prática, os diretores são treinados a pensar mal daquele que deseja sair da obra. Não há, na mentalidade do opus dei, a menor possibilidade de que um membro da obra queira sair por um motivo nobre: “En concreto, convendrá enterarse con prudencia de qué clase de amistades cultiva; si tiene intimidad con alguna persona; si se aconseja con algún eclesiástico (ajeno a la Obra), en lugar de hacerlo con sus hermanos; qué correspondencia envía y recibe, pues quizá escriba a parientes, a amigos o a otras personas que le hagan muy poco bien; qué libros lee.

Primeira desconfiança: o membro tem amizades indesejáveis. Leia-se, aqui, amizade com ex-membros da obra capazes de contar algo que desabone aquela imagem de perfeição que a obra inculca em seus membros. Por isso, pode acontecer que um membro da obra seja expulso pelo simples fato de ter recebido um e-mail de um possível ex-membro, conforme o relato de R.: Mais que a Cem Tabeliães Unânimes....

Segunda desconfiança: o membro tem intimidade com “alguma pessoa”. Intimidade, aqui, é algum tipo de namoro. Apesar de toda a vigilância e de todas as proibições (e até mesmo por causa dessa obsessão em proibir e vigiar) esses casos acontecem. Em geral, os numerários têm dificuldades afetivas. Não podem, por exemplo, ser “demasiadamente” amigos de outros membros da obra. Isso é qualificado como “amizades particulares”. Não pode ter muito contato com a “família de sangue”, pois isso é qualificado de “familiose”... Por isso é compreensível, por exemplo, que aconteça que alguns numerários menos problemáticos dêem um jeitinho... como no caso que se tornou conhecido no Brasil, e relatado numa carta aqui publicada.

Terceira desconfiança: o membro está em contato com sacerdotes que não são do opus dei. Essa é uma antiga obsessão do opus dei. Desaconselha-se fortemente que um membro da obra se confesse ou converse sobre temas espirituais com um sacerdote que não pertença ao opus dei. Proteção de “más influências”? No fundo, a obra sabe que os problemas que ela causa em seus membros (escrúpulos, problemas psíquicos, tendências ao fanatismo...) podem ser resolvidos com uma direção espiritual normal, de um sacerdote que se preocupe com a alma do fiel mais do que com a sobrevivência e o crescimento da instituição a que o membro pertença. A propósito, o membro da obra é, antes de tudo, um católico, e tem o direito, enquanto tal, de recorrer à ajuda da Igreja católica, sempre, onde e quando o desejar, dentro ou fora do opus dei.

Quarta desconfiança: o membro está recebendo cartas que podem influenciá-lo a sair do opus dei. Cartas escritas por um amigo, ou mesmo pelos pais!! Por isso é comum, dentro da instituição, a prática da violação da correspondência. Com o advento dos e-mails essa prática tornou-se dificílima. Daí também o medo e a repugnância que se incute nos membros com relação à internet (ou... infernet?).

Quinta desconfiança: leituras. O opus dei tem pavor de livros que possam, de algum modo, fazer seus membros pensarem fora dos esquemas traçados pela instituição. Por isso olham com desconfiança para a literatura e para a filosofia. Pode-se ler Tomás de Aquino, que é ótimo, mas autores, mesmo católicos, que façam pensar, isso é perigoso. Antes que o Cardeal Ratzinger fosse chamado pelo Papa João Paulo II para trabalhar no Vaticano, os livros daquele teólogo eram proibidos dentro do opus dei. É mal vista também (quem leu saberá por quê...) a leitura do conto “O Alienista” de Machado de Assis. Há uma infinita lista de títulos que a obra não permite que seus membros leiam. Isso produz, paradoxalmente, uma fragilidade intelectual muito grante nos seus membros...


TRECHO:

Los que no siguen adelante

Cuando, a pesar de todo, alguno no persevere, hay que tratarle siempre con mucha caridad y delicadeza: ayudarle, disculparle, comprenderle; también entonces, hacer con él lo que querríamos que hiciesen con nosotros, si nos encontrásemos en las mismas dolorosas circunstancias.

Tenemos una bendita experiencia, que no deja de ser una gracia especial de Dios: los que abandonan su vocación mantienen siempre un cariño grande a la Obra; es lógico que sigan amando lo que amaron. El hecho de que no siguieran adelante, no es razón para que no continúen unidos —pegados— a la Obra; y colaborando de alguna forma —con su oración, con su limosna— en los apostolados. En cualquier caso, los Directores han de tomar las medidas —dictadas por la caridad y por la prudencia— para que no se perturbe el buen espíritu de los demás, ni se creen confusiones o situaciones equívocas: por ejemplo, si mientras no pasen muchos años, se les permitiera que con demasiada frecuencia y confianza visitasen nuestros Centros, o se les invitara a comer allí; si se tuviera con ellos una excesiva familiaridad, en el trato y en las conversaciones, como si no hubiera pasado nada; si se les contaran cosas de la vida en familia, o si se les hiciera intervenir prematuramente y con cierta autoridad y responsabilidad en actos o en trabajos relacionados con la Obra y que, por ser públicos, pudieran tener una cierta difusión. La mejor manera de manifestar su buena disposición es que ayuden generosamente —según su capacidad— en las labores de apostolado, al menos durante bastante tiempo. (pp. 55-56)

COMENTÁRIO:

Chega a ser engraçado, quando se consegue ler esse trecho com os olhos livres do fanatismo interno do opus dei. Um membro decide sair da obra. Terá suas razões e seus motivos. Caberia ao opus dei ajudá-lo a tomar essa decisão, sem as intermináveis conversas, em que não faltam ameaças e acusações, como relatou um numerário, em carta a Mariano (opuslivre.org) enviada em 16 de abril de 2004:

“Prezado Mariano

“Li algumas partes do site com relação à Obra. Fui numerário num período muito curto. Não tenho nada contra a Obra, apesar dos erros que pude ver, abuso de diretores etc. me associo às palavras do Semeador (membro da Obra que escreveu para esta WEB) e acho que os benefícios são maiores. Tive a oportunidade de acompanhar o trabalho das Obras corporativas nas duas seções e sei que há atividades sociais formidáveis e cheias de limitações. Quando falei que minha idéia era ser supernumerário, que a vida de numerário não era minha vocação, quase fui xingado (que eu era Judas, que a Vocação não se prova, que eu era um orgulhoso e sensual, que seu eu havia posto a mão no arado e olhasse para trás não seria digno do Reino de Deus etc.) – e vi que não estavam me entendendo, sendo algo simples, que é querer casar-me. Diferente do que me disseram, continuo rezando, fazendo as normas, sem perder a fé. Fiquei assustado com uma conduta totalmente alheia à caridade – coisa que sempre me ensinaram. Achei um grande abuso por algo tão simples, e vc sabe como é o tratamento para alguém que quer "sair da Obra", é como se fosse uma heresia. Preciso de ajuda, pois tenho a decisão firme de dizer-lhe que quero frequentar os meios de formação. Minha idéia é ser supernumerário, ter filhos, uma esposa... vejo os mais velhos e penso que é preciso ter realmente uma Vocação, pois chegar aos 50 anos ou mais e olhar para trás, não ter descendência.... para mim, faltaria algo. Quero ter uma Santa Família, e acham isso um disparate... Não sofro represálias, e venho sendo acompanhado. Vc pode me ajudar?” (D.E.L.)

O fato é que, na prática, há coação, sim, há ameaças, sim. Os diretores dizem à pessoa que quer sair da obra que ela, com essa decisão, por mais que tenha sido tomada em espírito de oração, está colocando sua salvação eterna em risco. Mal se lembram, esses diretores, supostamente leitores assíduos do evangelho, o que Jesus disse alto e bom som: “ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque fechais aos homens o reino dos céus” (Mt 23, 13).

E a obra ainda se apresenta neste documento como aquela que “desculpa” e “compreende” quem quer sair da obra! É, de fato, muita pretensão... E, a seguir, deixa ver até onde vai a sua caridade...

De fato, o ex-membro da obra, desculpado por ela, poderá continuar colaborando, com sua oração e com seu dinheiro, mas (e nisso eles são ciosos e prestam contas à prelazia) os diretores tomarão as medidas necessárias para que os outros membros, os que ficaram, não saibam mais do paradeiro dos que se foram. Os ex-membros não podem mais entrar nos centros, são tratados como ex-irmãos. Pois, na verdade, não se pode dar a entender que não aconteceu nada... Aconteceu, sim. O ex-membro, na mentalidade do opus dei, é um traidor, e pode prejudicar o bom espírito dos outros, pode dar mau exemplo, a “maçã podre” de que falava Escrivá. Devem, por isso, calar-se, colaborar com seu dinheiro durante bastante tempo, e jamais pensar em questionar o opus dei, que deverá prosseguir seu caminho, dizendo sempre que os ex-membros, coitados, não puderam perseverar, mas ainda sentem um imenso carinho pela prelazia...

É importante mencionar que o membro da obra, ao sair, é instruído a escrever uma carta em que, geralmente, apresenta suas desculpas ao prelado por não ter perseverado na vocação. Entrega esta carta ao diretor, um documento que ficará nos arquivos da prelazia, garantindo que o culpado nessa história toda foi realmente o ex-membro — ele é que não foi fiel, e jogou pela janela a grande oportunidade da sua vida!

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